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Reportagem de capa da Revista donna dc no domingo 07/09/2014 com a participação de nosso psicólogo Paulo Pimont

FILHO ÚNICO: AS DORES E AS DELÍCIAS DE TER UM SÓ

“E o próximo, é para quando?” “Tadinho, você não vai dar um irmãozinho para ele?”Frequentemente disparadas em direção aos pais de filhos únicos, as inconvenientes perguntas acima não estão nem perto de modificar uma tendência: a mesa do almoço familiar está menor do que nunca no Brasil.

Se na década de 40 ela abrigava 6 filhos e 40 anos depois esse número caiu para 4, a média hoje fica entre 1 e 2 crianças por família. No Sul, as famílias são menores ainda: segundo o Censo de 2010 do IBGE, nos domicílios com renda per capita acima de 5 salários mínimos, a taxa de fecundidade das mulheres no Sul é de apenas 0,96. Quanto mais alta a renda familiar e a graduação das mulheres, menos filhos elas têm.

>> Leia mais: Escritora defende a liberdade individual em relação ao filho único

Lauren Sandler, jornalista americana, filha única e mãe de unigênita resolveu revisar toda a bibliografia sobre o assunto e publicou o resultado no livro Primeiro e Único (Ed. Leya). Apesar de observar a tendência ao redor ( boa parte dos colegas da pequena Dahlia na escolinha do Brooklyn, em Nova York, são filhos únicos), Lauren observa o quanto a opção ainda é imersa em cobranças e mitos.

Para entender o encolhimento das famílias, é preciso colocar a questão em perspectiva. Há nem tanto tempo atrás, filhos eram encarados como reforço indispensável à força de trabalho familiar. Portanto, nada mais natural do que tê- los às dezenas.

– Crianças eram seguros de vida. Pais de filhos únicos eram dignos de pena – pontua a jornalista.

Outro fator que contribuía para as grandes famílias era o cenário da vida: o pacato meio rural. Antes da mudança demográfica campo-cidade, famílias serviam como núcleo social básico. Crianças sem irmãos eram condenadas a cresceram sozinhas, sem a companhia de outras crianças. Hoje nas cidades – onde a fecundidade é menor em relação às cidades menores ou ao campo – crianças convivem com colegas, vizinhos e filhos de amigos dos pais.
Somada à paternidade tardia, famílias de três componentes integram um conjunto de características que define a chamada vida moderna. No pacote, além do adiamento da paternidade estão a popularização da pílula anticoncepcional e as preocupação com questões financeiras e de conciliação com o trabalho. O ritmo que a vida moderna impõe muitas vezes não deixa espaço para um segundo filho.

– Cientistas sociais têm especulado desde os anos 70 que unigênitos oferecem a rica experiência da paternidade sem os cansativos esforços que vários filhos acrescentam: todos os milagres e os moicanos de shampoo, mas com energia de sobra que vai do sexo à conversa – diz Lauren.

Diante de tais argumentos, há quem acuse pais de filhos únicos de egoístas.

– Oscar Wilde já disse: “Egoísmo não é viver à nossa maneira, mas desejar que os outros vivam como nós queremos”. Eu arriscaria dizer que a felicidade tem muito a ver com liberdade de viver a vida que você quer viver, não importando se isso significa ter cinco filhos ou um ou nenhum. Quando pessoas podem fazer escolhas com base em seus próprios desejos, e não no que o mundo está dizendo para elas fazerem, o bem-estar de toda uma sociedade flutua um pouco mais alto.

Mas o estereótipo de que famílias grandes são mais felizes ainda paira no ar. Professora da Universidade de San Diego entrevistada para Primeiro e Único, Jean Twenge aponta para a necessidade de contextualizar o momento. A mesma cultura que insiste para que tenhamos mais bebês, tem um discurso dúbio que prega: “Você tem que ser capaz de ter tudo – todos os filhos, toda a liberdade e nenhum compromisso”. Conforme ela, diante da culpa de mulheres sem filhos ou com apenas um é preciso que se afirme: é impossível dedicar todo o tempo para seu trabalho, à paternidade ou ao lazer.

Paulo Pimont, psicoterapeuta de Florianópolis, levanta outros motivos que justificariam a manutenção das famílias maiores ainda que de forma irresponsável.

– A sociedade ainda não vê o filho único como uma boa escolha, principalmente por esta tendência a delegar a educação dos filhos às escolas. Se eu enquanto pai me abstenho da responsabilidade total de educar meus filhos, vou delegar isso a avós, creche, escola e também aos meus outros filhos. Esse é o verdadeiro perigo em nossa sociedade. Quanto mais me volto para a carreira e para o trabalho, mais prudente seria ter um ou nenhum filho. Mas o pano de fundo desta questão é: quem é responsável por essas crianças? Quem assume a educação e a construção de valores deste futuro cidadão – questiona.

Conforme as pesquisas de Lauren, cada filho acrescenta 120 horas de trabalho doméstico por ano. A conclusão da escritora é:

– Nós trabalhamos mais para sustentar famílias maiores em casas maiores e carros maiores – e então olhamos para nossas famílias como fontes de trabalho, e não prazer.

Michelle, Sofia e Jorge. Fotos: Felipe Carneiro/Agência RBS

ESTÍMULO E COBRANÇA PRECOCES

Antes de casar, a produtora de festas Michelle Montegutte, 34 anos, sonhava com a mesa do café da manhã repleta de meninas. Três, mais precisamente. Era um sonho desde os tempos de escola.

– Sempre fui louca por família grande, por mesa arrumada, sou completamente apaixonada por este universo, sou sempre cor-de-rosa. Achava que teria três meninas. Eu achava que três era um número lindo.

Mas o tempo passou, o casamento com o bombeiro e chef de cozinha Jorge Batista, 31, trouxe a bela Sofia Morgana, de sete anos, e não há a mínima vontade de dar uma companhia para a filha.

– Antes dela nascer, as pessoas diziam que tinha que nascer com saúde. Eu completava dizendo que, além disso, queria uma menina loira, de olhos azuis – sorri, olhando para a filha, exatamente como na descrição da mãe.

Michelle vai além:

– Eu acredito que a Sofia seja a junção das três meninas que quando era pequena eu queria.

Os mimos para a única filha são incontáveis, mas como a maioria dos pais, eles buscam o equilíbrio na dosagem entre educação e diversão. Nem sempre é fácil para ambas as partes. O pai, com quem Sofia tem circulado pela orla de Balneário Camboriú, onde moram, acusa as manhas.

– Às vezes, ela está andando de patins, cai, chora e eu falo: ‘Levanta e vamos’. Ela vê que não vou voltar. Quando vejo que ela se machucou, um tombo, eu vou. Em alguns momentos, talvez a gente dê um castigo e volte atrás. Acho que se tivéssemos dois filhos talvez fosse diferente – explica Jorge.

Com o foco direcionado para a pequena, há uma cobrança maior pelos resultados. No dia a dia, Sofia tem a obrigatoriedade de cumprir as tarefas de um método de estudo de matemática que pratica desde muito cedo. Ela não gosta, reclama, mas sabe que nos 365 dias do ano, mesmo nas férias ou nas viagens para os Estados Unidos ou Europa, é preciso se concentrar nos exercícios. Acompanhar a produção de um dos pratos feitos pelo pai também faz parte da convivência.

– Me perguntam por que ela estuda tanto matemática. As pessoas, no mundo em que vivemos, precisam ser ágeis, pensar rápido. Já ouvi reclamações de que somos muito severos. Estou moldando a minha filha para ela ter sucesso na vida profissional e pessoal. Sou mais severa para ela não precisar de ninguém, para ela se desenvolver rápido. Com um filho é mais fácil – finaliza Michelle, que também admite o medo de ter que se adaptar novamente a outra realidade familiar.

TEMPOS DE ESCOLHAS INDIVIDUAIS

A mudança na estrutura familiar que experimentamos é chamada pela literatura acadêmica de segunda transição demográfica, termo cunhado pelo demógrafo e teórico social Ran Lesthaeghe na década de 80. A primeira transição se deu no final da 2 ª Guerra Mundial, período de recuperação de nascimentos e de casamentos, caracterizada como o auge da família. Em oposição à primeira, child oriented, a segunda transição seria self ou adult oriented.
Conforme Lesthaeghe, a nova transição é travada no campo das ideias. O mundo das famílias menores é um “novo regime governado pela escolha individual” substituindo ” uma forte estrutura normativa com base em uma ideologia da família apoiada pela Igreja e pelo Estado”. Nessa receita, entram necessidades de ordem superior que representam a realização pessoal, como a criatividade, a espontaneidade, a confiança e o sucesso. Tudo isso tornaria a decisão de não casar ou não ter filhos uma questão não apenas econômica mas filosófica.

DERRUBANDO MITOS

Cazuza, um filho único com altas doses de personalidade e talento, cantou que crianças sem irmãos são seres egoístas e solitários. Será mesmo?

O estereótipo do filho único problemático nasceu em 1896 com o livro Of Peculiar and Exceptional Children, do americano Granville Stanley Hall. Nele, o psicólogo descrevia unigênitos como mimados, solitários e desajustados. A publicação acabou por influenciar outros autores, mas a verdade é que as pesquisas modernas não têm confirmado esse perfil. Conforme o levantamento de Lauren Sandler, grande parte dos pesquisadores concluiu que não há diferença na qualidade ou quantidade de amizades dos filhos únicos, e nenhuma desvantagem em termos de competência. Pelo contrário.

Toni Falbo, psicóloga educacional da Universidade do Texas e referência mundial no tema, analisou os resultados de testes padronizados aplicados a alunos com e sem irmãos com o intuito de avaliar suas habilidades matemáticas e de expressão verbal. A conclusão foi que os filhos únicos tinham melhor rendimento escolar. A mesma resposta foi encontrada no estudo Característica do comportamento do filho vs filho primogênito e não primogênito, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Nele, filhos únicos obtiveram melhor desempenho escolar do que filhos com irmãos. Nos quesitos de comportamento social, relacionamento com os pais e amigos, prática de esportes, tabagismo e uso de drogas não se detectaram diferenças entre filhos únicos e primogênitos ou não primogênitos.

Quanto à acusação de serem mimados, o terapeuta Paulo Pimont é quem responde:

– Vamos lembrar que não podemos analisar um filho sem olhar para seus pais em primeiro lugar, são os pais que educam e transmitem valores aos seus filhos.

Se for único ou não é menos importante que a educação que estes pais estão dando às crianças. Ser “bem- comportado”, saber dividir as coisas, saber lidar com as frustrações de um não, são responsabilidade dos pais ensinar, um irmão não ensina são os pais que ensinam. Então aí está a resposta: ter um filho mimado é responsabilidade dos pais e não dos irmãos.

Entre as desvantagens dos filhos únicos levantadas por especialistas estão a necessidade de lidar com crises familiares ou morte dos pais sozinhos sem um vínculo importante como o de um irmão, que ajudaria a atravessar e superar momentos difíceis. Ao mesmo tempo, o filho único em geral é um bom companheiro para si próprio. Conforme Carl Pickhardt, autor do livro The Future of your Child, o tempo sozinho, longe de ser doloroso, torna- se gratificante, porque a criança sem irmãos está estabelecendo um vínculo de benefícios duradouros – a amizade primária consigo mesma.

Rodrigo, Arthur e Saviany

 

“HOJE É MAIS DIFÍCIL EDUCAR”

O reinado de Arthur só não é absoluto porque ele ultimamente tem dividido as atenções com o spitz alemão Teddy. Aos 10 anos, o menino é o filho único de Saviany Monteiro, 36, e Rodrigo Ferreira, 46, empresários goianos que escolheram Santa Catarina para morar e se estabelecer profissionalmente.

A distância dos avós, por exemplo, é um dos motivos que fortalecem a decisão de não aumentar a prole. O assunto é tema recorrente entre os amigos do casal, muitos também pais de um só filho:

– Olha, é uma pauta que está sempre em alta com nossos amigos, todo mundo fala a mesma coisa, que é a correria da vida, muita gente também fala do custo, tem essa preocupação, mas eu não penso assim. Pra mim, o maior peso é não ter com quem deixar, a primeira babá aprontou horrores. Tem a escolinha, às vezes tínhamos que sair correndo pra pegá-lo. Não quero outro filho que não consiga dar mais atenção – esclarece Saviany, relembrando os primeiros anos de Arthur.

Uma nova gravidez rondou os pensamentos do casal por vários momentos nesta primeira década de convívio com o filho.

– No nosso caso, por várias vezes, pensei em engravidar. Uma vez fiquei 30 dias sem evitar, mas ficamos com medo. Será que é isso mesmo? Hoje ele nos satisfaz tanto, mas dá essa saudade de quando era pequeninho.

Rodrigo vem de uma família com cinco filhos. Os mais velhos ajudavam os mais novos, e assim sucessivamente, em um aprendizado lateral comum entre irmãos.

– Acho que hoje é mais difícil educar do que antigamente. A gente tinha que se virar, contava com a ajuda dos irmãos, tinha menos problema de violência e droga, não tinha esse negócio de iPad, a gente tem que controlar isso. Ele tem um computador no quarto dele, sempre teve acesso à tecnologia, mas o computador tem um horário (pré-determinado) – comenta sentado ao lado do filho, que escuta tudo atentamente.

No momento, além da escola e outros compromissos semanais, Arthur tem se aventurado na cozinha.
A mãe, que adora preparar jantares para ocupar a extensa mesa de refeições, tem colaborado com as primeiras experiências gastronômicas do pequeno.

– Se ele quer outro irmão? Claro que não. Ele não quer perder o reinado (risos) – brinca Rodrigo.

Alessandro, Maria Eduarda e Vanessa

MIMOS E ATENÇÃO SÓ PARA ELA

A empresária Vanessa Rosa, de Floripa, não tem medo de opinar. Para ela, ter um filho único é ter um filho-problema:

– Sim, eles são muito mimados, são egocêntricos – dispara, minutos antes de ver a filha Maria Eduarda, a Dada, 18 anos, adentrar a sala no alto de mais de 1,80m ampliado pela ajuda de um belo salto.

A altura, aliás, é uma das características do trio, composto ainda pelo pai, Alessandro Almeida, 42.

Quando tinha a mesma idade da filha, Vanessa engravidou. Foi um susto, mas uma descoberta de um novo mundo.

– Ela foi tão mimada que era pra ficarmos 40 dias na casa da minha mãe, acabamos ficando um ano, por causa dela. Para o bem-estar dela. E também porque eu era muito nova. Mas fiquei bem leoa desde o início, não tive problema algum. Ela pode ter sido bastante mimada, mas não é fresquinha – comenta.

Alessandro pondera.

– A gente sempre fez quase todas as vontades dela, o que ela pedia. Mas também é uma coisa natural, social. Uma boa escola, a mochila que todo mundo está usando, isso envolve uma logística, sempre tentamos dar o melhor conforto. O mimo também passa por aí.

Na noite anterior à entrevista, o trio desandou a comentar o tema de nossa reportagem.

– Ela mesma admitiu que é mimada – fala Vanessa, olhando para Dada, que assume ser o alvo de todas as atenções.

– Claro, tem o lado bom e também tem o negativo – fiz a filha, que chegou a receber 20 ligações diárias da mãe durante uma temporada de férias no Rosa. Todos riem quando relembram.

Estudante de Arquitetura, Dada convive desde bebê com outros filhos únicos _ apesar de que ela considera um dos primos, Pedro, como um irmão.

Estudaram juntos, foram vizinhos e se encontram até hoje. Ela tem uma espécie de teoria sobre o tema:

– Sempre sonhei, desde pequena, em ter mais irmãos. Quando fiquei mais insistente, ganhei a Vicky (um poodle). Queria ter irmãos, sobrinhos. Todas as minhas amigas que têm irmãos, por exemplo, só querem ter um filho. As filhas únicas querem mais. Eu quero três – aponta.

Quando a direção da sabatina se volta para Vanessa, que aos 37 anos ainda pode ser mãe tranquilamente, ela retoma
o tom certeiro do início da conversa:

– Nunca passou pela minha cabeça em ter outro filho, nunca.

Colaborou: Cristiano Santos

http://revistadonna.clicrbs.com.br/2014/09/09/filho-unico-as-dores-e-as-delicias-ter-um-so/

 

Entrevista do Psicólogo do Ipê Roxo, Paulo Pimont para a TV Com.

ENTREVISTA Da PSICÓLOGa DO IPÊ ROXO, sonia farias PARA A TV COM.

Sonia

 

 

ENTREVISTA DA PSICÓLOGA DO IPÊ ROXO, SONIA FARIAS no caderno donna do diário catarinense

dc

 

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