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A culpa é de quem?
Ipê Roxo - Instituto de Constelação Familiar | 31/03/20 | 3 comentário(s)

 

Por Julia Segatto Barros

Em momentos difíceis como o que estamos vivendo com a pandemia do novo coronavírus, é comum procurarmos um culpado. As hipóteses difundidas na imprensa, nas redes sociais e nas conversas online são as mais variadas. Seria uma resposta do Planeta Terra frente à degradação desenfreada do meio ambiente? Seria uma tentativa dos chineses de conquistarem o mundo? Seria uma estratégia do presidente norte-americano Donald Trump para firmar a supremacia econômica dos Estados Unidos? Antes que sua mente possa apontar a resposta, tome um tempo e pause.

Não se apresse em julgar. Não se deixe levar por preconceitos nem pelos seus valores, pois ambos são dualistas e, como um pêndulo, ora se movem para o lado daquilo que é certo, ora se movem para o lado do que é errado. Qualquer julgamento no sentido de apontar culpados neste período de incertezas é apenas a expressão da nossa consciência pessoal. Bert Hellinger, criador do método de Constelação Familiar, afirma que exercemos a consciência pessoal quando pensamos, sentimos ou fazemos algo que corresponde às expectativas, valores e exigências da nossa família ou de um grupo ao qual pertencemos.

Vou contar uma história que vai ajudar a entender melhor. Aos 22 anos morei alguns meses na França para estudar. O ambiente acadêmico na universidade era bastante internacional, mas cerca de 60% dos alunos eram chineses. Foi inevitável o choque de cultura entre os chineses e as demais nacionalidades – inclusive algumas orientais – em parte, porque os chineses mantiveram-se fechados em seus grupos, que chamávamos de “guetos”. Eles conservavam os mesmos hábitos e costumes que tinham na China e, para aumentar ainda mais o distanciamento social com o restante dos estudantes, queriam impor sua cultura. Eles não se misturavam. Nós também não.

Foi apenas 15 anos mais tarde, quando participei de um seminário para treinamento de consteladores familiares pela Hellinger Schule na Alemanha, que pude olhar para os chineses de outro modo. Dessa vez, os brasileiros eram maioria em número de participantes, e os chineses ficavam em segundo lugar. Sophie Hellinger e os demais professores conduziam exercícios sistêmicos em grupos ou duplas, e eu torcia para não os fazer com colegas chineses. Eis que o inevitável aconteceu: cheguei atrasada um dia, não me sentei com meus compatriotas e fiz o exercício mais profundo de todo o treinamento com um chinês.

Naquele exercício, eu representava a mãe do rapaz chinês, que olhava profundamente e com extrema ternura dentro dos meus olhos. Eu me senti muito pequena diante do amor generoso daquele rapaz. Fui constelada ali, e anos de preconceito ruíram, talvez por eu não precisar mais pertencer ao grupo dos internacionais que não se misturavam com chineses.

Bert Hellinger explica que:

A consciência, ao mesmo tempo que liga, também delimita e exclui. Por isso, para continuar pertencendo ao nosso grupo, frequentemente nos sentimos obrigados a recusar ou negar a outros, pelo simples fato de serem diferentes, o direito de pertencimento que reivindicamos para nós. Então nos tornamos, por obra da consciência, temíveis para os outros. Pois exatamente o que tememos para nós mesmos – a exclusão do grupo – como a pior consequência de uma culpa e como a ameaça extrema, temos de desejar ou fazer aos outros, em nome da consciência, só porque são diferentes. E assim, como procedemos com os outros, os outros procedem conosco, em nome da consciência”. (HELLINGER, 2006, p. 62)

No dia seguinte ao exercício com meu colega chinês, uma gentil senhora (chinesa) me ofereceu um pouco do lanche de sua filhinha de cinco ou seis anos. Eu me permiti experimentar uma fruta exótica que desconhecia por completo. A inclusão para mim veio quando eu consegui enxergar o amor. Então, em vez de se perguntar de quem é a culpa pela pandemia que vivemos, pergunte antes “O quê ou quem preciso incluir no meu coração?

 

Estamos todos suscetíveis

Um dos assuntos mais comentados desta semana tem sido a manutenção, a flexibilização e a suspensão do isolamento social para toda a população ou apenas para os grupos de risco. Este dilema tem levado muitos de nós a lutar por um ponto de vista que, agora, só resultará em mais separação e conflito, pois as decisões dos nossos governantes, independentemente do que escolherem ou renunciarem, terão consequências fatais e inevitáveis.

Então, não se trata de excluir aqueles que pensam e se comportam de modo diferente de nós, mas de, com coragem e respeito, transgredir os limites de sua consciência pessoal e aceitar que estamos unidos ao restante do mundo pela nossa impotência perante à ampla disseminação da COVID-19, pela nossa completa vulnerabilidade e por um destino comum aos seres humanos.

É hora de aceitar que todos viveremos as consequências da pandemia, de uma forma ou de outra, e que, portanto, todos devemos fazer sacrifícios e respeitar a dor do outro. Se nos mantivermos alinhados àquela consciência pessoal que exclui, estaremos impedidos de olhar para os recursos disponíveis para enfrentar a pandemia. Enquanto isso não ocorre, todos permanecemos suscetíveis.

Julia Segatto Instituto Ipe Roxo Contoterapia Constelação Familiar

Julia Segatto Barros é jornalista, consteladora familiar e sistêmica, aluna do curso de Formação em Contoterapia e professora assistente do Instituto Ipê Roxo.

 

Contato: julia.segatto@gmail.com

 

 

 

 

Instituto Ipê Roxo comenta:

A consciência pessoal exclui e está a serviço de manter o nosso pertencimento ao nosso clã. Em nome dela, somos capazes de excluir tudo aquilo que é diferente ou que sentimos que pode, individualmente, nos ameaçar. Ela é uma consciência bem restrita.

E o que pode nos ajudar agora?

Estarmos em contato com nossa consciência maior, a consciência que vai para além daquilo que é bom e válido para nós e nosso grupo individualmente.

O que pode ajudar e que nos fará melhores quando tudo isso passar está ligado a uma consciência maior que inclui tudo e todos como são, com suas dores e forças, com seus erros acertos, com sua luz e sua sombra. Uma consciência maior que não julga porque compreende que cada um é certo à sua maneira.

Bert nos ensina que esta consciência maior é uma consciência espiritual, que se manifesta quando um grupo reconhece a consciência de outro grupo como equivalente, digno do mesmo valor, fazendo com que a diferenciação entre bom e mal, certo e errado, melhor e pior seja superada.

Essa consciência espiritual abarca a todos, reúne aquilo que se encontra separado, pois nela não existe rejeição ou exclusão.

Cabe lembrar que este exercício não é algo que temos que colocar distante de nós, como algo pertencente ao mundo das ideias; ao contrário, podemos exercitar como uma postura de vida.

É uma forma de viver que podemos começar a aplicar agora nas relações que estão próximas de nós, na forma como olhamos para aquele vizinho que pensa diferença de nós, para aquele pai ou mãe da escola dos nossos filhos que pensa diferente de nós sobre manter ou não a quarentena na escola, na forma como falamos de quem está liderando nossa empresa, nosso município, nosso estado e nossos países.

 

3 Comentários

  1. Wesley de Souza Rodrigues

    Muito lúcido o ponto de vista. Parabéns!

    Responder
    • Ipê Roxo - Instituto de Constelação Familiar

      Olá Wesley! Gratidão por nos acompanhar!

      Responder
  2. Ismael António de Araujo0

    Gostei demais de sua experiência, com o jovem chines, principalmente onde afirmas que a conciência espiritual engloba tudo, é não existe rejeição ou exclusão, uma vez estando envolvido nestas práticas.

    Responder

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