Um olhar sistêmico para o aborto e seus efeitos

É importante ressaltar neste início de texto que o assunto ‘aborto’ é um tema muito complexo. Nosso esforço neste artigo é mencionar alguma observações de Bert Hellinger no tocante a este assunto tão difícil.

Em nenhum momento temos o interesse de avaliar o aborto, nem como certo, nem como errado, mas descrever um pouco sobre como este movimento traz desdobramentos para a alma familiar, através daquilo que estudamos e observamos no trabalho das Constelações Familiares.

Através do conhecimento sistêmico trazido por Bert Hellinger, podemos perceber primeiramente que os relacionamentos entre os membros de um sistema familiar são sentidos em níveis profundos da nossa inconsciência, ou como Hellinger define, da nossa alma.

Isso significa que todos, a partir do momento da concepção, passam a existir nessa consciência familiar e passam a ser pertencente a este grupo familiar. Cada ser, cada vida, cada membro tem um lugar.

Sua existência, desde o primeiro momento, entra para o campo de informações que compõe a família, independente se seu nascimento se concretize ou não.

Outro ponto a se observar é a questão do que Hellinger traz como destino. Para além da idéia de que há uma predestinação dos acontecimentos da nossa vida, para Hellinger o destino é o que acontece em nossa vida. É aquilo que cabe para cada pessoa em seu caminho de aprendizado durante a sua existência.

O pertencimento e a perda

Se todos têm um lugar no sistema a partir de sua concepção, os acontecimentos com a vida de um novo integrante também surtem efeitos no sistema familiar, e em especial entre o casal.

A observação de Hellinger recai principalmente no relacionamento entre homem e mulher, que em determinado momento geraram esta vida que por algum motivo, não pôde permanecer.

Ambos sentem em sua alma a falta e a dor da perda, muitas vezes de forma inconsciente. E isto gera movimentos posteriores para o casal.

“Crianças abortadas têm sempre um efeito especial para seus pais. Elas são sempre importantes para os pais. Nisso existe, frequentemente, a dinâmica de que a mãe ou o pai dessa criança abortada queira segui-la, também, na morte.

Ou expiam, quando mais tarde não se permitem estar bem, por exemplo, não têm ou não encontram mais um outro companheiro.

Ou, se têm um relacionamento, se separam. Isso seria muito pior para a criança abortada se soubesse do efeito do seu destino.”

Bert Hellinger, “A fonte não precisa perguntar pelo caminho.

O vínculo

Das dinâmicas descritas por Hellinger, chama a atenção o efeito deste ato para o relacionamento atual ou relacionamentos posteriores do homem e da mulher.

Filhos são a materialização do vínculo do casal. É o resultado máximo do amor e da união de duas pessoas. E por esse motivo, na visão de Hellinger, o aborto, em especial o aborto realizado através de uma decisão, carrega em si um mensagem para o companheiro(a): “com você não desejo este vínculo.”

Esta mensagem é escutada na alma e gera dificuldades para o relacionamento posterior do casal. É como se algo tivesse se quebrado no interior do relacionamento.

É um movimento comum e bastante observado nas constelações que o casal, após um aborto, não mais permanece junto. Há uma separação na alma e possivelmente também de forma física.

Uma outra possibilidade

Também ocorre nos abortos espontâneos que o casal não entre em contato de forma real com o luto da perda da criança. Esta dor não vista e não sentida atua então no inconsciente e tende a gerar um espaço e afastamento no relacionamento.

É como se fosse um assunto que não é falado, que se torna um tabú no relacionamento. A solução capaz de restaurar o relacionamento seria os pais olharem para esta criança e reconhecer sua existência, mesmo que curta.

A solução seria que os pais de tais crianças lhes dessem um lugar em seus corações. Isso só pode acontecer se ela for vista por eles. Em primeiro lugar, precisa ser vista por seus pais.

E eles dizem a ela com amor: “Minha querida criança”.

Quando então a dor pela criança aflora nos pais, isso a honra e então flui o amor entre os pais e a criança. Isso reconcilia.

A dor e o amor reconciliam a criança com o seu destino.

E é importante que a força que vem da culpa possa fluir para algo bom, em homenagem a essa criança, por exemplo, no cuidar generosamente de outros. Isso atua de volta na criança.

Então a criança não se foi. É acolhida novamente pelos seus pais, participa de sua vida e fica reconciliada. Isso seria uma boa solução para todos”.

Bert Hellinger, “A fonte não precisa perguntar pelo caminho.”

Um assunto complexo

O aborto é algo que atua em muitos níveis e toca em muitas áreas. Não é o objetivo aqui dizer o que deve ser feito, ou o que é correto ou errado. Muitas vezes, são acontecimentos que fazem parte da história de vida e como tal devem ser respeitados. 

Mas como todo comportamento humano, seja bom ou mal, seja legal ou ilegal, seja dito ou escondido, ele traz um efeito para a vida de todos os envolvidos.

É esse olhar da alma que tem tornado, cada vez mais, a Constelação Familiar numa referência no trabalho terapêutico e como filosofia.

Ver o que atua verdadeiramente na alma, para além do julgamento moral que qualquer decisão possa ter, é o que permite tocar no que influencia nossa vida de fato, e então, partir para um caminho de inclusão e cura, com respeito a todos.

Só assim podemos evoluir como humanos em nossa vida e em nossas relações.


Este conteúdo (textos, imagens e artes gráficas – exceto trechos de livros, citações de outros autores, e imagens de banco de imagens, quando houver) é exclusivo e produzido pelo Ipê Roxo – Instituto de Desenvolvimento Humano. Sua reprodução é permitida se acompanhada com o devido crédito:material de propriedade do Instituto Ipê Roxo – disponível em www.institutoiperoxo.com.br|Curadoria de conteúdo realizada por Ana Cht Garlet, professora do Instituto.”


Participe do Workshop e vivencie uma forma profunda de olhar para a realidade do que atua em sua alma.

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