A influência do movimento interrompido em direção aos pais – Constelação Familiar de Bert Hellinger

Tudo aquilo que acontece conosco têm a capacidade de criar imagens internas que nos influenciam por toda a vida, principalmente quando não conseguimos digerir e integrar aquelas experiências que foram difíceis.

Essa é uma realidade que também acontece na nossa fase adulta. Porém, quando isso acontece quando somos crianças, as sensações e sentimentos que resultam dela parecem ainda mais fortes. Nessa fase, nosso sistema físico e neurológico ainda está em formação e somos mais dependentes do meio e de nossa família para processar nossas experiências. E dependendo do grau de dificuldade do acontecimento, pode ser “demais” para uma criança.

Esse acontecimentos difíceis podem ser chamados de traumas. O movimento interrompido em direção à mãe e ao pai é um tipo deles.

Peter Levine descreve que trauma é tudo aquilo que aconteceu cedo demais, rápido demais ou forte demais. Isso significa que um trauma pode ser um evento que, para aqueles que olham de fora, aparenta ser “pequeno”.

Trauma é tudo aquilo que aconteceu cedo demais, rápido demais ou forte demais.

Peter Levine

Porém, para uma pessoa (ou criança) que ainda não estava preparada para enfrentar certo acontecimento, como por exemplo uma ausência prolongada da mãe e que fez surgir nela a sensação de abandono, isso se torna uma marca interna que pode acompanhar todos os seu movimentos durante a vida, em relação à sua família, seus relacionamentos, seu trabalho e a vida em si.

O que são movimentos interrompidos?

Quando crianças, nosso foco maior de segurança são os nossos pais. Nós precisamos deles e da segurança que eles nos proporcionam para experimentar o mundo que nos cerca.

Quando experienciamos algum perigo, ainda na infância, a primeira coisa que procuramos é o olhar e a presença de nossos pais, e em especial, nossa mãe. Neste encontro e nesta presença, aquilo que nos dá medo perde força, e seguimos nosso crescimento aproveitando da segurança que eles nos oferecem.

Movimentos interrompidos “acontecem” quando buscamos esta segurança e não encontramos, seja por uma ausência momentânea ou prolongada, por um mal entendido ou por um abandono de fato.

Nestas situações nós, enquanto crianças, experienciamos a sensação de estarmos sozinhos, sem nosso porto de segurança. Sentimos que estamos correndo risco de vida. E isto gera um forte impacto em nosso inconsciente.

A dinâmica que atua neste momento é de uma forte desconfiança da criança em relação aos pais. E como mecanismo de defesa contra esse sentimento, ela impede que novos movimentos de confiança sejam feitos em relação à eles. Uma decisão inconsciente, que Bert chama de movimento interrompido.

A interrupção

O que acontece é que a criança evita construir um caminho de confiança em relação aos pais como forma de evitar a dor que ele sentiu ao experienciar o abandono. A sutileza aqui é que geralmente a sensação de abandono não está calcada em um verdadeiro movimento de abandono pelos pais, mas que a criança sentiu dessa forma.

Ela carrega este sentimento durante sua vida e geralmente este movimento somente se restaura através de um trabalho terapêutico ou de autoconhecimento. Isso porque a experiência emocional é tão forte na infância, e tão instintiva, que isto fica impresso no seu inconsciente, bloqueando outros movimentos de vida.

“Quando alguém que tenha sofrido a interrupção de um movimento precoce vai ao encontro de outra pessoa, digamos, de um parceiro, a lembrança daquela interrupção torna a aflorar, mesmo que apenas como memória corporal inconsciente. Então a pessoa torna a interromper o movimento, no mesmo ponto em que o interrompeu da primeira vez.” Bert Hellinger, no livro “Ordens do amor.”

A citação acima explica um dos principais exemplos de como nossas experiências na infância acabam por influenciar toda nossa vida, quando não nos dispomos a olhar para elas e buscar uma reconciliação com o que atua em nós.

Através dos pais

Hellinger fala que quando vivenciamos esta dinâmica do movimento interrompido, a melhor forma que temos de buscar uma solução é através de nossa mãe, porque é geralmente a ela que este movimento é dirigido.

Ele orienta como podemos restabelecer este contato quando houve um movimento interrompido:

“Com crianças pequenas a mãe ainda consegue isso facilmente. Ela toma o filho nos braços, aperta-o amorosamente contra si e o mantêm pelo tempo necessário, até que esse amor, que tinha se transformado em raiva e tristeza, flua de novo abertamente para ela.” Bert Hellinger.

Com filhos adultos, Hellinger diz que também é possível uma mãe ajudar seu filho, porém é necessário que se regrida em suas sensações e emoções à época onde a interrupção do movimento aconteceu. Esta é uma sutileza que exige de ambos que se permitam retornar a um momento que para a criança foi doloroso, e que ainda reside no adulto que ele se tornou.

Quando o pai ou a mãe não estão mais disponíveis, pode ser trabalhado através de um processo terapêutico, por exemplo.

E quando há resistência

Algumas vezes, os filhos resistem a estabelecer este movimento, seja por medo, seja por arrogância. Nestes casos, uma profunda reverência do filho aos seus pais ajuda a aliviar a rigidez desta resistência.

A reverência profunda é um movimento que atua no interior do adulto.

Reverenciar é um ato de reconhecimento de seu lugar em relação ao fluxo de vida que vem de seus pais. E ainda que de nada adianta dobrar-se fisicamente diante dos pais se isso não vier acompanhado de uma postura interna verdadeira, os efeitos são mais fortes quando se faz de forma visível e audível.

O que percebemos na grande maioria das constelações que conduzimos é que é isto que a criança/filho deseja. Muitas vezes, ele está apenas perdido no sentimento de medo e abandono que sentiu ao experienciar estes acontecimentos na infância.


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