Morte na família: sobrevivendo às perdas – um olhar sistêmico

Escrito por Márcia Alencar, psicóloga, hipnoterapeuta e consteladora familiar. Convidada especial do Instituto Ipê Roxo no Encontro anual dos Alunos.


 

Por toda a estória e em todas as culturas, os rituais de luto facilitam não apenas a integração da morte, mas também as transformações dos sobreviventes para que a vida continue.

Da perspectiva familiar sistêmica, a perda pode ser vista como um processo transacional que envolve o morto e os sobreviventes em um ciclo de vida comum, que reconhece tanto a finalidade da morte como a continuidade da vida. Alcançar o equilíbrio neste processo é a tarefa mais difícil que uma família deve enfrentar em sua vida.

E qual a finalidade da morte? Do ponto de vista individual saber que vamos morrer ajuda a fazermos um plano para nossa vida. Podemos também ter a morte como “aliada” para procurar viver uma “boa vida”. Esta perspectiva nos ajuda a valorar a vida e suas questões. Do ponto de vista coletivo morrer é dar lugar para que outros possam viver!

E por sua vez ter a certeza da continuidade da vida nos ajuda a partir em paz e deixar para aqueles que ficam a confiança necessária para continuar o dia a dia e saber que a dor vai se transformar numa “saudade gostosa”. Podemos com o tempo lembrar estórias, rir e chorar quase tudo ao mesmo tempo.

Mudanças

Na família acontecem muitas transformações, uma delas é que alguém “toma o lugar do morto”, num acordo implícito. Alguém vai procurar exercer suas funções e assim terá dificuldade de viver sua “própria vida”, já que está no lugar do outro.

Além disso podem ocorrer sintomas, alguém pode adoecer: pânico, depressão e outras doenças podem surgir a partir daí. O trauma da morte é um dos maiores estressores que podemos enfrentar e a raiz de muitas doenças.

Outras transformações que acontecem são as brigas e rupturas. Algumas brigas acontecem através da disputa de herança. Outras brigas tem como raiz a culpa e a raiva. Muitas vezes no primeiro momento buscamos um culpado, até aceitarmos a perda como um processo natural da vida.

O luto

O luto é processo interno e também familiar.

Como processo interno consome uma grande energia, nos sentimos “esgotados”. E algumas vezes também ” aliviados”, dependendo da situação, o que também nos causa culpa. Em outras situações nós sentimos paz, porque acreditamos que cumprimos nossa missão.

No luto passamos por várias etapas: primeiro negamos, não acreditamos que aconteceu; segundo nos revoltamos; terceiro pensamos numa permuta: podia ter sido eu e não ele; depois aceitamos e vamos buscando um jeito de ficar em paz com o que aconteceu.

Elaboração do luto

Alguns fatores são muito importantes para influenciar na elaboração do luto:

  • como a morte aconteceu: naturalmente, em função de uma doença ou acidente.
  • a idade do morto, se é uma pessoa mais velha geralmente se aceita com facilidade. Já quando é uma pessoa mais jovem causa um sentimento de “injustiça”.
  • o suicídio faz com o que o luto seja mais difícil de ser elaborado. Na nossa cultura o suicídio é um tabu. Pode também acontecer um suicídio disfarçado através de um “acidente”.
  • A fase do ciclo de vida onde a morte acontece: se ela acontece quando os filhos são pequenos, quando o casal já está aposentado etc.
  • O papel e a função que o morto desempenhava no sistema familiar: se a pessoa que morreu desempenhava um papel fundamental ou mais periférico isto também interfere na elaboração do luto.
  • A disponibilidade da família extensa, de recursos sociais e econômicos: são outros fatores importantes na ajuda para adaptar a família a esta nova situação e poder seguir em frente.
  • A capacidade de se comunicar, falar dos seus sentimentos e sofrimento. Em muitas famílias não se pode falar do morto e da dor que estão sentindo. Acreditam que falar é pior. O segredo vai afastando as pessoas e criando um muro entre elas que pode vir a separa-las. Por exemplo: muitos casais se separam após a perda de um filho, pois não conseguem elaborar a dor e vão se afastando.
  • Relações conflituosas ou rompidas na época da morte é outro fator importante. Às vezes um filho está rompido com o pai e este pai morre, não consegue se despedir, pedir perdão, etc. Aparentemente pode ter a ilusão que tanto faz, que não faz diferença, mas na verdade este fator interfere na elaboração do luto podendo complica-lo.

O luto na família

Às vezes o processo de luto congela o indivíduo e família. E todos passam a viver como se “papai ainda fosse vivo” ou respeitando a vontade de papai, mesmo que esta vontade traga prejuízo para a família.

Às vezes o processo de luto se “complica” e muitos problemas emocionais e relacionais acontecem na família.

Além das perdas por morte, existem as perdas não reconhecidas.

Alguns exemplos: quando alguém, principalmente o mantenedor da família, perde o emprego; quando acontece um aborto; quando acontece o divórcio do casal ou de um dos filhos; quando a família sofre uma catástrofe: incêndio, falência, enchente, assalto…

Estas perdas também fazem com que família passe por um processo de luto e precise buscar uma nova adaptação para seguir com a vida.

E como ficar em paz com uma perda?

Luto significa luta, briga. A luta é interna e externa, porque muitas vezes se manifestam nas relações familiares.

Buscar a paz é um processo que passa por várias fases que já foram citadas.

Você consegue a paz negociando com você mesmo. Buscando uma “compensação”.

Um exemplo que podemos citar é o da mãe do Cazuza, que criou uma fundação para ajudar crianças com aids.

Buscar a paz é aceitar a vida como ela é. Aceitar a morte como parte da vida.

Morrer é a última coisa que fazemos pela nossa própria vida.

A vida e a morte estão sempre de mãos dadas, na nossa frente. A morte nos ensina a viver melhor. Percebemos a dimensão do tempo, temos tempo mas ele não é infinito, temos força mas ela não é infinita. Precisamos usar bem nossos recursos e sentir que vivemos uma vida com sentido, assim poderemos viver bem e morrer bem! Teremos uma “boa vida” e uma “boa morte”.

Conversando sobre o luto

Uma velha estória relata que um amigo perguntou a Platão, no seu leito de morte, como resumiria o grande trabalho da sua vida, “Os Diálogos”, numa só frase.

Platão voltando de suas visões, olhou para seu amigo e disse: “exercício para morrer”.

Pesar e luto dizem respeito às conexões cortadas. Pesar é o sentimento de perda diante de uma conexão interrompida ou quebrada, e luto é o processo de incorporação desta perda na nossa vida.

Uma pessoa pode ser capaz de aprender, a partir de suas experiências de perda e luto relativas aos outros, como lamentar-se e enlutar-se pela sua própria morte.

Estar de luto pela morte dos outros é uma maneira de ensaiar a nossa morte. Mas o luto não é só isso; é também um ritual de expressão de alguns dos sentimentos mais profundos e íntimos da nossa experiência.

Se você inibir a expressão do seu pesar, pode ficar doente: depressão crônica, comportamentos ansiosos, comportamentos ritualísticos repetitivos, ou uma raiva excessiva, incontrolável.

A forma final de obter liberdade pessoal é preparar a nós mesmos para a iniciação dos mortos, aceitando a própria morte como aliada. O que o anjo da morte pode nos ensinar é como viver de verdade. Só temos o presente para viver!

Um pequeno exercício

Imagine que você tem 7 dias para viver. O que você faria nesta semana? Lamentar-se ou aproveitar seu tempo fazendo aqui que realmente gosta de fazer?

Serei eu mesmo. “Não pretendo mais dirigir a minha vida tentando agradar aos outros. Não vou mais ficar com medo do que os outros pensam de mim.” Você fica sem medo!

O anjo da morte nos ensina que não temos nada: casa, marido, filhos, carro, carreira, dinheiro… você vai conquistando, construindo, usufruindo enquanto a morte não vem.

O anjo da morte também nos ajuda a sermos felizes. Ele leva embora o passado, para que sua vida possa continuar. Leva embora o passado que já morreu, você aprende a viver no presente!

‘’A felicidade consiste em aceitar com alegria o que a vida nos dá e em soltar com a mesma alegria o que a vida nos tira”

Santo Agostinho.

‘’No dia em que a morte bater à tua porta,/o que lhe oferecerá?/ Eu colocarei diante do meu convidado o jarro cheio de minha vida;/ Jamais o deixarei partir de mãos vazias”.

R. Tagore

Acreditamos que vamos morrer, mas agimos como se não tivéssemos consciência da nossa própria mortalidade.

Para nos tornar conscientes necessitamos cultivar um olhar contemplativo que pode ser conquistado através da meditação e pela reflexão das seguintes perguntas:

Sou o meu corpo?

Sou a minha consciência?

Sou algo além do meu corpo e minha consciência?

Um olhar amplo

A compreensão da não existência de um EU inerente e permanente nos livra de todos os medos, inclusive o da morte!

Assim como quando acendemos um incenso damos início à sua não existência, quando somos concebidos damos início ao nosso processo de morte!

Pensar sobre a morte nos ajuda a viver melhor. O Budismo nos aconselha a pensar, pelo menos três vezes ao dia, sobre a morte. Se pensarmos na morte agora, poderemos morrer em paz e sem arrependimentos. Meditar sobre a morte é um processo de cura.

Devemos incluir a nossa morte na nossa vida!


“A morte como conselheira” 

Encontro de Alunos do Instituto Ipê Roxo 2018

Como acontece todos os anos, teremos no dia 02 de novembro um encontro anual destinado para todos os alunos dos cursos de nosso Instituto. Este ano o tema é “A morte como conselheira” e contará com a participação especial da psicóloga Márcia Alencar (CRP 12/00559).

Se você é nosso aluno e gostaria de participar, saiba mais informações clicando no banner abaixo.


Este conteúdo (textos, imagens e artes gráficas – exceto trechos de livros, citações de outros autores, e imagens de banco de imagens, quando houver) é exclusivo e produzido pelo Ipê Roxo – Instituto de Desenvolvimento Humano. Sua reprodução é permitida se acompanhada com o devido crédito: material de propriedade do Instituto Ipê Roxo – disponível em www.institutoiperoxo.com.br | Curadoria de conteúdo realizada por Ana Cht Garlet, professora do Instituto.


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