Reflexões de Mário Prisco Paraíso

Mundo VIRTUAL: extinguir, suportar ou conviver?

Por Mário Prisco Paraíso*

A quase unanimidade de crianças e jovens acreditam seguramente que suas ações virtuais não têm consequências reais. Pais e educadores não sabem como aplicar a educação real aos ambientes virtuais. Esse conflito tem solução?

Vivemos numa sociedade líquida e virtual, onde as famílias são cada vez menores, as distâncias entre as pessoas cada vez maiores e as relações humanas caracterizadas muitas vezes pela frieza e indiferença.

Influenciados pela cultura globalizada da busca a todo custo de uma suposta liberdade individual, crianças e jovens se ilham em seus refúgios secretos e transformam o seu local de descanso, num verdadeiro recinto virtual. Ali sentem-se seguros e avaliam que podem, a sós, satisfazer seus interesses imediatos, convertendo-se em autênticos nativos digitais.

Para suportar as exigências da globalização num mundo consumista e materialista, pais se entregam de corpo e alma às atividades laborais, terceirizam integralmente a educação dos filhos, não se atualizam, por vezes, sobre a realidade do mundo tecnológico e mantém estilos educativos superados. Exigem que a escola preencha esse vácuo, são compassivos com os filhos e inquisidores com os educadores.

A verdade é que esse relacionamento entre pais e educadores, longe de ser o ideal, está cada vez mais distante do aceitável. E se ambos não chegam a um denominador comum, a uma unidade de ação, como reduzir as consequências desta massiva penetração virtual na vida de crianças e adolescentes?

Certos de que em seu ninho tecnológico não estão expostos aos perigos da vida real, crianças e adolescentes “navegam” sem limites e adquirem conhecimentos nem sempre da melhor procedência. Pais se iludem que na segurança do lar seus filhos estão distantes dos riscos da rua, acomodam-se com essa pseudo tranquilidade e não administram de forma adequada a oferta dos instrumentos tecnológicos. Educadores procuram fazer o “meio campo”, muitas vezes sem o sucesso almejado!

Mas que geração é essa?

Embora se por um lado possua uma maior consciência ecológica, um anseio pela paz, um respeito à diversidade e uma busca da solidariedade, pelo outro está mais distante dos afetos de pais e avós, menos receptiva aos valores familiares, mais entediada, apática e preguiçosa. Uma geração, sem dúvida, mais introspectiva, menos relacional e mais frágil.

Seria então indicado, para solução do conflito, a extinção desta geração interativa multifuncional, com suas habilidades de processamento de informações, de manipulação das técnicas comunicativas virtuais, de compartilhamento de tempo em atividades simultâneas e de facilidade adaptativa? Com certeza não!

Há que se buscar urgentemente um esforço conjunto, uma ação direcionada e interativa entre jovens, pais e educadores que possibilitem uma verdadeira aproximação entre todos, que auxilie para ressignificar os verdadeiros valores da família e contribuir para a construção de uma nova sociedade, mais solidária e justa.

 

Jovens precisam sentir a necessidade do convívio e do afeto interpessoal; pais necessitam despertar, passando a ocupar o papel primordial e irrenunciável de primeiros educadores, deixando de ser apenas provedores de bens materiais; e educadores precisam robustecer a educação com mais atenção para os aspectos cívicos, morais e de sociabilização, além do indispensável compartilhamento da vida virtual.

Muito mais que suportar, escolhamos então o conviver, que é a arte centrada no âmago do partilhar sinceros relacionamentos e do coexistir de maneira cordial e pacífica.


Mestrando em Matrimônio e Família- Universidade de Navarra- Espanha e professor convidado do Instituto.

Deixe uma resposta