As origens da Constelação Familiar: as referências de Bert Hellinger

Quando falamos de Constelação Familiar, o principal pensador que vem à mente é Bert Hellinger. Não sem razão: seu estudo e contínuo interesse tem movido o conhecimento desse campo há mais de 40 anos.


Ainda hoje, em seminários ao redor do mundo, Bert Hellinger (92 anos) fala que ele é movido por sua curiosidade naquilo que conhecemos como Constelação Familiar. Ele também direciona seu conhecimento através dos movimentos que se apresentam neste campo que trata de relacionamentos sistêmicos e suas influências.

Nunca seu direcionamento foi em estruturar uma linha de pensamento ou escola. Ainda assim, a Constelação Sistêmica tem se tornado uma forte linha filosófica. Linha esta que tem trazidos valiosos insights sobre os relacionamentos humanos e familiares.

Ainda assim, muitos outros vieram antes e seus respectivos estudos (alguns no campo já chamado de Constelação Familiar) contribuíram para o trabalho que hoje conhecemos através de Bert Hellinger.

O trabalho desenvolvido por Hellinger

Quando se assiste ao trabalho de Hellinger, como quando ele conduz uma Constelação Familiar, pode haver um estranhamento inicial. Hellinger, embora um homem de coração aberto, soa muitas vezes duro e determinista.

Bert Hellinger em um atendimento de Constelação Familiar (Imagem: Hellinger Schule)

Suas intervenções são firmes e certeiras. O que está por trás dessas ações, além da grande experiência de muitas décadas trabalhando com pessoas e seu sofrimento, são variadas linhas de pensamentos psicológicos que o ajudaram a formar a compreensão que hoje possui sobre a Constelação Familiar e Sistêmica.

No foco de todo este conhecimento, Hellinger aponta seu olhar a uma só direção: permanecer a serviço daqueles que chegam até a ele. Acreditamos que por isso seu trabalho permanece tão forte e valioso.

Vamos abordar neste artigo algumas linhas de conhecimento que, segundo Bert, o  ajudaram a chegar naquilo que transformou na Constelação Familiar na forma como conhecemos hoje.

Uma grande parte das referências tratadas aqui foram trazidas pelo próprio Bert Hellinger em um entrevista concedida a seu amigo Norbert Linz, disponível no livro “Ordens do Amor”.

Erick Berne: Análise Transacional

Eric Berne foi um psiquiatra e psicanalista canadense que durante os anos 20 lançou o que passou a ser conhecido como análise transacional.

Ainda que estivesse na mesma corrente que Freud, a teoria de Berne se diferenciava em um ponto fundamental. Freud acreditava que insights para o paciente viriam de sua fala. Já Berne acreditava que estes insights surgiriam da análise da forma como o paciente se portava em suas relações.

A teoria da Análise Transacional acredita que o ser humano é um indivíduo social, e que se colocado em contato com outra pessoa, algo irá resultar dessa interrelação.

Berne postulou que existem 3 estados de ego que influenciam nossa postura durante a vida:

  • Ego Pai: São padrões desenvolvidos, aprendido e influenciados por experiências externas dos 0-5 anos, como por exemplo o relacionamento com os pais e familiares, amigos e outras pessoas. 
  • Ego Criança: influenciados por experiências internas do 0-5 anos, é o ego que é guiado pelas emoções, criatividades e sentimentos interiores. É o mais espontâneo dos 3 estados de ego e é fortemente baseado em sentimento que cultivamos na nossa primeira infância.
  • Ego adulto: É o estado do ego mais racional e realista. Seria o ego maduro, onde tomamos decisões sem inteferência das emoções e das regras.

Na nossa vida, Berne defendia que alteramos entre os 3 estados do ego para seguir em nosso desenvolvimento, utilizando em cada momento o ego que melhor se adapta às necessidades.

Em seu livro “Games people play” (Jogos que as pessoas jogam, em tradução livre), propôs que os jogos ou padrões comportamentais postos em prática entre indivíduos podem revelar emoções e sentimentos ocultos.

“O insight decisivo me veio quando pratiquei a Análise do Script (Análise transacional) segundo Eric Berne. Ele partiu da constatação de que cada pessoa vive de acordo com determinado padrão.” Bert Hellinger

Athur Janov: Grito Primal

Arthur Janov foi um psicoterapeuta americano que no fim dos anos 60 observou algo que veio a ser conhecido como grito primal.

Seu insight definitivo veio quando durante uma sessão de psicoterapia, um cliente seu deitou-se no chão e proferiu “um grito estranho, oriundo de sua profundeza.”

Assim veio a idéia de trabalhar com reexperiência de momentos difíceis na busca de liberar e expressar algo que estava bloqueado.

Hellinger disse:

“Fiquei profundamente impressionado com a maneira direta que Janov abordava as emoções. (…) Alguns clientes e terapeutas se deixam levar exclusivamente por suas emoções. Logo percebi isso e me defendi dessa atitude.

Porém, conservei o que tinha valor: antes de tudo, que o indivíduo seja entregue a si mesmo e não se ocupe de sentimentos alheios como recurso para escapar dos próprios, distraindo-se de si mesmo”

Jakob Moreno: Psicodrama

O terapeuta vienês emigrou para os Estados Unidos em 1925. Juntou seus estudos à sua outra paixão, o teatro. Desenvolveu um conhecimento onde o cliente poderia representar toda sua vivência e sua experiência no mundo em uma encenação.

Dessa forma, o Psicodrama permitia que variados aspectos do relacionamento do cliente (desejos, esperanças, temores e objetivos, assim como familiares e relacionamentos) pudessem se materializar em um atendimento.

Assim, aquilo que era difícil e complicado para o cliente se materializavam também nos papéis representados e na interação do cliente com eles.

Um dos objetivos principais do psicodrama é permitir ao cliente, através da atribuição de papéis e de sua própria representação em relação a ele, uma forma de experimentação de diferentes pontos de vista e testar novas possibilidades e perspectivas.

Com estas representações, o Psicodrama permite a criação de uma nova experiência interior em relação a algo antes estagnado.

Virginia Satir: Esculturas Familiares

Virgínia Satir foi uma terapeuta americana creditada como a “mãe” da terapia familiar. Seu trabalho, diferente do psicodrama, não se preocupava tanto na reencenação de relações.

Seu foco foi nas estruturas formadas pelo modo como as pessoas dentro de um sistema se relacionam.

Para isso, antes do trabalho das esculturas, um workshop era realizado para que fosse feita a reconstrução familiar.

Nesse ponto, era trabalhada a história da família em questão em todas as suas facetas, utilizando-se todas as relações afetivas e de parentescos em diversas gerações.

Após esse momento de conscientização do objetivo e complexidade dos relacionamentos sistêmicos e familiares, era que se direcionava para a escultura familiar propriamente dita. Através desse aprendizado, os representantes deveriam ser escolhidos conforme sua proximidade com o papel representado.

No livro “Constelação Organizacional”, os autores Klaus Grochoviak e Joachim Castella falam que: 

 “dessa forma foi possível representar em gestos e mímicas aquilo que até então estava oculto na imaginação do indivíduo como imagem interna; por meio de gestos, posições ou relações de distância os participantes podiam experimentar as percepções dos demais membros do sistema.

E algo que se evidenciou especialmente na reprodução da mímica e dos gestos do estereótipo dos participantes é que os representantes têm sensações semelhantes aos representados. Virginia Satir chegou à conclusão de que as pessoas tendem a experimentar sentimentos semelhantes quando assumem posturas semelhantes.”

Fenomenologia: Friedrich Hegel e Immanuel Kant

O conceito da Fenomenologia foi criado pelo filósofo Edmund Husserl. De acordo com sua conceituação, todos os fenômenos do mundo devem ser pensado a partir das percepções mentais de cada ser humano.

Ele sugere que os acontecimentos devem ser estudados conforme eles sejam experimentados na consciência, por aquilo que se mostra essencial à sua percepção. Assim, entende-se que a fenomenologia estuda a essência do que é observado da forma como é observado.

Hegel e Kant são dois expoentes desse campo. Vamos saber mais sobre eles.

Friedrich Hegel

Hegel é o autor do livro “Phänomenologie des Geistes” ou Fenomenologia do Espírito. Aqui, a compreensão da palavra Zeitgeist (Espírito do tempo), um termo famoso que fala sobre a cultura de determinado contexto, auxilia a entender o centro da idéia de Hegel.

Para Hegel, idéias e valores se alteram continuamente, conforme a cultura da época (zeitgeist). O que era contraditório em um período, se tornam aceitos em outro. Uma vez que as idéias e valores presentes na culturam estão em constante mudança.

A idéia de Hellinger do não julgamento flui deste pensamento. Algo não pode ser simplesmente bom ou ruim, pois o valor de bom ou ruim atribuido às coisas mudam conforme a regra e a cultura da sociedade.

Immanuel Kant

Revolucionou o pensamento sobre o mundo ao observar que não temos como definir o que está externo a nós a não ser pela mente e sentidos.

Assim, tudo aqui que vemos e vivenciamos é, em sua base, uma interpretação, e não a “realidade”. Essa visão é a base da Gestalt terapia.

Os estudos de Kant ficaram conhecidos como Idealismo transcendental. Estes conhecimentos é onde ele afirma que nossas idéias da coisas que experienciamos nada mais são do que percepções de nossas faculdades humanas.

Assim, não podemos alcançar a realidade. Mas somente a idéia de como percebemos como seria a realidade. Segundo Kant, esta é, em si, capaz de se revelar objetivamente.

Outras influências

Bert Hellinger falou sobre algumas de suas outras influências no livro “Ordens do amor”. Veja algumas delas aqui.

  • Ruth McClendon e Les Kadis: “Estive nos Estados Unidos por mais quatro semanas e participei de um grande seminário sobre terapia familiar, dirigido por Ruth McClendon e Les Kadis. Com eles aprendi muito. Faziam Constelações Familiares impressionantes e, por intuição ou por tentativas, encontravam boas soluções.

  • Thea Schönfelder: “Participei ainda de dois cursos com Thea Schönfelder sobre Constelações Familiares. Ela trabalhou de uma  forma muito marcante, que eu já compreendia melhor.”

  • Milton Erickson: “A primeira coisa foi que Erickson reconheceu o ser humano tal como é, reconheceu os sinais como são, deixando-se conduzir pelos sinais do cliente que está diante dele.”

  • Boszormenyi-Nagy: “escreveu um livro sobre “Os Vínculos Invisíveis”. Isso me apontou uma direção. Mas logo passei a examinar por mim mesmo como atua nas famílias a necessidade de compensação.”

O ponto de partida de Hellinger

Essas foram algumas das referências trazidas por Bert Hellinger no começo do seu trabalho com as Constelações Familiares. Inclusive, entre elas, pessoas que já trabalhavam numa linha de Constelação Familiar.

Seu grande insight partiu da observação da influência das 3 leis, e como elas eram relevantes para explicar as desordens dentro dos sistemas familiares. A partir de então, ele caminhou na direção de expandir o conhecimento da constelação através da prática, o que tem feito desde então.

Ele próprio nunca se preocupou em explicar o porque a Constelação fuciona e como ela funciona. Ele passou sua carreira observando os efeitos que ela trazia aos participantes e a si mesmo.  Outros estudiosos entraram em contato com seus estudos. E desse movimento surge uma nova leva de conhecimento que tem se preocupado com a explicação científica da Constelação.

Algumas teorias como a de neurônios espelhos, campos mórficos, estudos de transmissão de traumas transgeracionais entre outros, encontram cada vez mais espaço na explicação científica deste conhecimento. E esse movimento irá se ampliar cada vez mais. Um vez que a Constelação Familiar e Sistêma têm encontrado muitos bons resultados em diversas aplicações ao redor do mundo.

Saiba mais sobre a Constelação Familiar

Estamos com a pré-inscrição para a turma 8 da Formação em Constelação Familiar de Bert Hellinger. A turma 7, que se inicia em maio, está com as vagas esgotadas.

Neste curso passamos pela história de Hellinger e pelo seu olhar inovador que se revelou através da Constelação Familiar. Nossas lealdades invisíveis, nosso amor ao sistema, os reflexos dos destinos difíceis e o que não aceitamos em nossa história. E principalmente, como isso impacta nossa postura na vida.

Através do trabalho pessoal de cada aluno, aliado ao embasamento teórico e prático da filosofia de Bert Hellinger, a integração do conhecimento das Constelações Sistêmicas tomam forma para aplicação profissional do aluno, após o curso.

Muitos alunos também nem sempre tem a intenção do trabalho terapêutico após o curso. Porém encontram um profundo benefício ao incorporarem a postura do trabalho das constelações em sua àrea de trabalho.

Afinal, o centro deste conhecimento está na influência das relações pessoais dentro de um sistema. E nós, como seres sociais, experimentamos isto em praticamente todas as àreas da nossa vida.


Saiba mais sobre a nossa Formação em Constelação Familiar de Bert Hellinger. Pré-inscrição para a turma com início no segundo semestre de 2018.


O Ipê Roxo – Instituto de Desenvolvimento Humano é pioneiro em Florianópolis no trabalho com as Constelações Sistêmicas. Foi fundado pelos consteladores Sonia Farias, Maria Inês Araujo Garcia Silva, Paulo Pimont e Ana Garlet.

Constelação Sistêmica é uma nova abordagem da Psicoterapia Sistêmica Fenomenológica criada e desenvolvida pelo alemão Bert Hellinger. Seus conhecimentos surgiram após anos de pesquisas com famílias, empresas e organizações em várias partes do mundo.

O resultado desses estudos se transformou em um trabalho simples, direto e profundo. Que se baseia em um conjunto de leis naturais que regem o equilíbrio dos sistemas que o próprio Bert gosta de chamar de “Ordens do Amor”.


Tem alguma dúvida? Fale conosco pelo formulário abaixo.

3 comentários em “As origens da Constelação Familiar: as referências de Bert Hellinger

    • Olá, a equipe do Instituto Ipê Roxo é a autora de todos os conteúdos contidos neste site, que recebe a curadoria da professora Ana Cristina Garlet.
      Equipe:
      Maria Inês Araújo Garcia Silva
      Sonia Suzana Caldas de Farias
      Ana Cristina Garlet
      Paulo Pimont
      João Januário Neto

Deixe uma resposta