“Porque eu sinto um vazio, uma sensação de que algo me falta?” – reflexões a partir da Constelação Familiar e Psicogenealogia

O sentimento de vazio interno é algo que quase todas as pessoas conseguem identificar. Em algum momento da vida, não importa o quão bem tudo caminha, um sentimento dentro de nós pode aparecer e denunciar o “estar incompleto”. O que é esse sentimento? E porque ele me acompanha? Qual o olhar da Constelação Familiar para este sentimento?

Esta pergunta sempre chega até nós, seja durante os atendimentos psicoterápicos, seja durante os cursos e workshops que realizamos.

E, respondê-la não é tão simples, é preciso um olhar amplo para encontrarmos algumas respostas.

E sobre isto que este artigo vai tratar.

Vamos olhar para o lugar de onde vem esta sensação. Também para o que já sabemos de nossa experiência terapêutica e dos últimos estudos que estão realizados.

 

Vamos começar do princípio…

A que ou quem estamos ligados quando “chegamos a vida”?

A constelação familiar de Bert Hellinger fala da nossa lealdade e amor ao nosso sistema familiar. Isso significa que, independente do nosso sentimento atual em relação à nossa família e aos nossos antepassados, estamos vinculados à história do nosso sistema.

Isso acontece porque fazemos parte. É como se um fio ligasse a todos: pais, filhos, irmãos, avós, bisavós e todos os antepassados. Qualquer movimento neste fio reverbera em todos que estão ligados a ele. Nas gerações passadas, presentes e futuras.

Hellinger escreveu que “além de sermos filhos, parceiros e talvez pais, partilhamos um destino comum com relacionamentos mais distantes. O que quer que aconteça a um membro de nosso grupo familiar, para bem ou para mal, nos afeta e afeta também os outros.

Junto com a nossa família, formamos uma associação cujo destino é comum.”

 

Mas porque esta sensação de que “falta algo”?

Através desta lealdade e desse amor temos acesso, em um nível inconsciente, aos acontecimentos difíceis de nossa teia familiar.

Um dos movimentos que acontecem com certa frequência é a exclusão de um integrante do sistema, por tantos motivos. Alguns exemplos: alguém que não se encaixava nos padrões aceitos pela família, alguém fez algo considerado “ruim”, alguém que foi alcoólatra, ou usou drogas, ou fez algo que possa ter “envergonhado a família – normalmente pessoas com destinos difíceis.

Questões diversas podem gerar divergências familiares e levar à exclusão de uma pessoa, fazendo com que lhe seja negado o lugar que lhe é de direito.

Essa exclusão também ocorre no nível da alma, ou no coração. Às vezes, a simples menção do nome vira um tabú.  Isso é visível também nos casos onde ocorre aborto e a criança que não pode permanecer não é olhada pelo sistema como pertencente. Não é dado a ela um lugar como alguém que, mesmo por pouco tempo, faz parte daquele sistema.

 

O excluído e sua influência

Porém, esta exclusão que nós fazemos, não tem “validade” para o inconsciente familiar. Este insconsciente é como um campo que guarda as informações e rege o pertencimento familiar. O sistema é dotado de um campo de memória que atua sobre todos que dele fazem parte.

E este inconsciente ou campo de memória vai encontrar uma forma de mostrar e apontar para o lugar vago da pessoa que foi excluída. Muitas vezes, se mostra através de algo que é sentido por outro membro do sistema.

Às vezes um vazio, às vezes comportamentos estranhos que fazem lembrar a pessoa excluída, algumas vezes sentimentos. Algumas vezes sensação de que algo falta, outras vezes até comportamentos destrutivos contra si ou contra outros.

Sim, algo está realmente faltando. E o sistema pede sua reinserção.

 

Nossa dificuldade em ver permite a continuidade deste sentimento

Geralmente olhamos para este sentimento em nossa vida como uma necessidade a ser preenchida. Então imaginamos que um novo trabalho, um salário maior, uma roupa nova, ou o último celular lançado são o caminho para suprir o que sentimos na alma. Porém, normalmente, “coisas” e “conquistas” não se mostram como um caminho para aliviar essas sensações.

A Constelação familiar tem mostrado que somos seres intimamente ligados à nossa história. E que manifestamos em nossas vidas qualquer perturbação que ocorre em nosso sistema familiar.

“Todos os membros, no sistema, têm igual direito à participação e nenhum pode negar ao outro o seu lugar. O sistema familiar se rompe quando um membro diz a outro: “Tenho o direito de participar, mas você não.” Isso sucede, por exemplo, se os membros apagam da memória alguém que sofreu, fez um sacrifício ou cometeu uma falta — talvez uma irmã que morreu na infância ou um tio que enlouqueceu. Os membros de uma família se sentem naturalmente tentados a excluir os que cometeram um crime, envergonharam a família ou violaram-lhe os valores; mas a exclusão de qualquer membro é perniciosa para os que apareceram mais tarde no sistema, independentemente de qual tenha sido a justificativa original.”             Bert Hellinger

Quando trazemos este ou um outro sentimento que nos aflige para um Workshop de Constelação, podemos olhar com clareza para a dinâmica que atua em nossas dores. E nesse olhar, já iniciamos o processo de trazer novamente para o pertencimento aqueles que por algum motivo foram excluídos.

Esta é a proposta da filosofia de Bert Hellinger: que possamos olhar e ver onde estamos emaranhados, o que ficou incompleto em nossa família e iniciar em nós um movimento de voltar a incluir o que estava separado.  Quando somos capazes de ver, podemos nos colocar diante de um novo caminho para realizar as mudanças necessárias.

Isso parece mágico, não é?

Mas não é mágica, nem sobrenatural. Essa opinião é uma incompreensão dessa filosofia. Na verdade, a “mágica” aqui está em perceber o quão profundos são nossos vínculos familiares, principalmente com antepassados que sequer conhecemos e que se mostram em nossa vida.

Muitas vezes ignoramos essa influência. Acreditando que dominamos e decidimos tudo em nossa realidade, independente do que tenha acontecido no caminho da vida até nós.

“Os membros de uma família ampliada veem-se como um todo e se sentem completos quando todos os que pertencem ao círculo familiar têm um lugar de honra em seus corações. Pessoas que só se ocupam de si mesmas e de sua própria felicidade não sentem essa plenitude. Sempre que um membro da família consegue restaurar no seu coração um excluído, a diferença é prontamente sentida. As imagens internas da família e do eu ficam mais completas e a pessoa de fato se sente mais integrada.” Bert Hellinger

Mas a ciência tem mostrado que somos muito mais que a soma de material genético. A teoria dos Campos Morfogenéticos de Rupert Sheldrake, assim como muitos outros estudos do campo da psicologia, mostram cada vez mais que temos sim (!) inúmeras ligações com nossos familiares para além das mais conhecidas.

 

O olhar da Psicogenealogia

Além da Constelação Familiar, podemos citar também os estudos da Psicogenealogia, que é o estudo da árvore genealógica. Esta ciência vai muito além do registro de datas e nomes: ela olha para além do genograma. Ou seja, trabalha com os vínculos, laços, dificuldades, eventos importantes, traumas e segredos que estão envolvidos na história de cada ser humano.

É para a história de cada um de nós que a Psicogenealogia olha. Partindo do princípio de que quando chegamos já encontramos um sistema ao qual passamos a pertencer. Esta abordagem nos mostra o quanto muitas vezes estamos presos em dramas e papéis que não são nossos e sim de alguém de nossa árvore genealógica.

Segundo Ana Garlet, que faz parte da equipe do Instituto e estuda a obra de Ancelin,

“Interessa para a psicogenealogia, sobre os antepassados, de 3 até 7 gerações: qual a profissão, as datas de nascimento, casamento, falecimento, separação, imigração; todos os filhos nascidos e não nascidos, movimentos migratórios, segredos guardados, histórias trágicas.

São importantes os nomes de cada pessoa, assim como lugares em que residiram. Tudo vai sendo registrado e é surpreendente o que vai acontecendo durante o trabalho: há conexões e repetições de fatos e datas que começam a saltar aos olhos, e vamos compreendendo melhor tudo o que recebemos de legado emocional e social, “porque” nossos pais e avós sentiam e pensavam de determinadas formas, o que atuava na vida de cada um que veio antes de nós.

Ela é uma abordagem que busca compreender de que maneira a história de nossos antepassados pode estar atuando sobre nossa vida presente, propondo assim caminhos para que possamos nos liberar e assumir a nossa própria identidade.”

A Psicogenealogia vai nos falar do quanto somos influenciados por tudo o que aconteceu antes: a vida de nossos pais, nossos avós, bisavós e às vezes até gerações anteriores.

 

A fonte da psicogenealogia

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Foto de Anne Ancelin Schutzenberg realizada em 2009, para uma entrevista na Psychologies Magazine 285, por Anne Laure Gannac

Anne Ancelin Schützenberger é o grande nome da Psicogenealogia no mundo. Ela nasceu em 1919, tem licenciatura em Direito e é Doutora em Psicologia. Atendendo pacientes portadores de câncer na década de 70 começou a notar as repetições e aparecimento da doença em datas e idades de alguma morte ou acontecimento traumático no sistema familiar.

Ela também é psicanalista formada com Françoise Dolto e Robert Gessain e psicodramatista formada com o próprio Moreno (criador do psicodrama).

Anne viveu a grande dor. Ela perdeu um filho.

Ela conta que, foi a partir de uma fala de sua filha que começou a interessar-se verdadeiramente pelo assunto. A filha observou: “percebes mamãe, que és a mais velha de dois filhos, cujo segundo morreu; e que papai é o mais velho de dois, cujo segundo morreu; e que sou a mais velha de dois filhos, cujo segundo morreu…”.

Vários estudos de casos dentro da Psicogenealogia demonstram que os traumas, segredos, conflitos dramáticos podem condicionar os descendentes que talvez se tornem portadores de distúrbios, doenças ou comportamentos estranhos e inexplicáveis.

Para a italiana Maura Saita Ravizza, pesquisadora e terapeuta importante para a Psicogenealogia europeia, o próprio Jung (um dos grandes psicanalistas de toda história) pode ser visto como um dos precursores da compreensão de que, de alguma forma ainda não tão bem compreendida, podemos “trazer em nós” questões não resolvidas por nós pais, avós ou bisavós.

 

A influência de Jung

Maura afirma em sua obra “Jung, Psicogenealogia e Costellazioni Familiari,  que no livro autobiográfico, Memórias, sonhos e reflexões, Carl Gustav Jung fez afirmações que lhe fizeram o precursor da abordagem psicogenealógica.

Resultado de imagem para C.G.Jung, Ma vie“Enquanto eu fazia minha árvore genealógica, entendi a estranha semelhança do destino que me conecta aos meus antepassados. Tenho fortemente a sensação de estar sob a influência de coisas ou de problemas que foram deixados incompletos ou sem respostas pelos meus pais, por meus avós e pelos meus antepassados. Parece-me que, frequentemente, existe nas famílias um carma impessoal que se transmite dos pais para os filhos.

Eu sempre pensei que também eu deveria responder às questões que o destino havia dado aos meus antepassados, para as quais não tinham conseguido encontrar resposta, ou que eu deveria resolver, ou simplesmente continuar a me ocupar dos problemas que foram deixados suspensos no passado. A psicoterapia não tem ainda embasamento suficiente para essa situação.”  Carl Gustav Jung, Ma vie.

Muitas vezes, todos estes estudos podem soar como desanimadores para nós, porém, embora Ancelin nos diga que somos menos livres do que acreditamos ser, ela afirma que podemos SIM reconquistar a nossa liberdade e sair dos padrões repetitivos, se compreendermos o que acontece conosco e qual a história de nossa família.

Para ela, existe um caminho, que é o de reconhecer nossa história e incluir tudo o que foi, do jeito que foi.

 

Estamos ligados ao todo

E essas ligações atuam no nosso dia-a-dia. Por isso essa dinâmica da falta que sentimos dentro de nós pode ser o sinal de que alguém em nosso sistema precisa do olhar inclusivo da família. Mesmo que não saibamos quem, nem o motivo da exclusão, esta negação ao pertencimento atua.

Após uma constelação, onde o tema foi trazido, é possível haver um movimento na família, onde lembranças desses integrantes excluídos surgem. Esse movimento é saudável e serve como uma forma de reconhecer e “devolver” o pertencimento daquele que estava fora.

Isso também traz distensionamento ao sistema familiar.

E assim, aquele sentimento de falta, de que algo precisa ser preenchido se acalma. E quando isso acontece, nós também retornamos ao nosso centro. Estamos mais integrados e capazes de levar nossa vida adiante, em honra a todo o nosso sistema.


O Ipê Roxo – Instituto de Desenvolvimento Humano é pioneiro em Florianópolis no trabalho com as Constelações Sistêmicas. Foi fundado pelos consteladores Sonia Farias, Maria Inês Araujo Garcia Silva, Paulo Pimont e Ana Garlet. Constelação Sistêmica é uma nova abordagem da Psicoterapia Sistêmica Fenomenológica criada e desenvolvida pelo alemão Bert Hellinger após anos de pesquisas com famílias, empresas e organizações em várias partes do mundo. O resultado desses estudos se transformou em um trabalho simples, direto e profundo que se baseia em um conjunto de leis naturais que regem o equilíbrio dos sistemas que o próprio Bert gosta de chamar de “Ordens do Amor”.


Instituto Ipê Roxo de Desenvolvimento Humano

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5 comentários em ““Porque eu sinto um vazio, uma sensação de que algo me falta?” – reflexões a partir da Constelação Familiar e Psicogenealogia

  1. Todos deveriam saber isto com maior clareza; quem sabe assim não remariam contra a corrente e ao contrario fariam de tudo para se aproximar cada vez mais… e serem mais unidos e felizes !!!!!

    • Olá Carina, que bom receber sua mensagem! É gratificante saber que te tocamos de alguma forma!
      Equipe Ipê Roxo.

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