O Brasil e a nossa indignação pela ótica da Constelação Familiar

Trazemos neste artigo o texto da aluna da Formação em Constelação Familiar Letícia Gazoni. Nele, ela fala das nossas dificuldades e indignações com nosso país. De como é possível olhar de outra forma para as dificuldades que atuam na nossa indignação e nossa não aceitação do que é.

Logo após, um trecho de Bert Hellinger que fala sobre esse sentimento, e como é o pano de fundo desta emoção. Clareando nossas percepções torna-se mais fácil lidar com estas questões que são tão desafiadoras a todos nós.

Leia e conheça um pouco mais da Constelação Familiar de Bert Hellinger.

Um desafio chamado Brasil

Ontem uma reflexão “pipocava” na minha cabeça e senti vontade de escrever sobre ela, mesmo sendo um assunto um tanto polêmico.

Tenho ouvido muito falar sobre as condições políticas no Brasil com os mais diversos sentimentos: indignação, raiva, tristeza, revolta. À mim eles também já pertenceram, mas hoje, não mais.

Não que seja agradável ouvir as notícias, mas não mais lhes dou minha energia. Alienação? Nem de longe. Inteirando-me ou não das notícias, continuo fazendo o que me cabe, deixando de agir (falar, argumentar, queixar) levada pelo sentimento secundário de indignação que os noticiários nos trazem já carregados com seu próprio filtro (emoções, pensamentos e intenções).

Já pensei como tantos que dizem que este país é uma vergonha e que o melhor a se fazer é realmente, mudar-se para outro. E não há nada de errado em mudar-se quando se sente uma forte conexão com outro país, mas se o impulso for fugir (não conseguir lidar com o que se sente), o sentimento vai como acompanhante, muitas vezes até como guia e muito pode pesar.

O que compõe um país?

De que são feitos os costumes, os valores, a identidade, a alma de um país? São feitos de cada um de nós, de mim, de você e dos políticos corruptos também, é claro.

Mas todos temos exatamente o mesmo peso, isso mesmo, o mesmo peso. E quando me pergunto se eu realmente estou trazendo para o mundo o meu talento de maneira que ele possa servir e me trazer plenitude, é o mesmo que me perguntar: estou fazendo minha parte pelo meu país?

Ao contrário do que pensava outrora, não é olhando primeiro para fora (política, pobreza…) que posso fazer algo por meu país, mas sim olhando para dentro, para como eu me sinto em relação ao meu lugar no mundo, a como me coloco no mundo.

Como posso querer que meu país seja bem sucedido e próspero se me submeto a estar em um trabalho onde não vejo propósito, nobreza, mas sim para pura e simplesmente satisfazer minhas necessidades externas (físicas e de consumo) sem que isso me traga prazer e gratidão e sem que eu me sinta realmente útil e equilibrado entre o dar e receber?

Estou sendo honesto comigo neste caso? Como posso cobrar honestidade de meu país se ele é o meu espelho?

O valor da superação

Até mesmo em meio aos que lutam por sobrevivência, quantas histórias vemos de pessoas que de tanto quererem encontrar seu lugar no mundo, superam-se e o alcançam? Como podem sair de suas precárias situações sem que a situação do seu país tenha mudado?

O que essas pessoas têm que as outras não tem? Nada, todos temos tudo o que precisamos, elas apenas olham para o lugar certo, para dentro e acessam lá aquilo que precisam para transformar-se.

Arrisco-me a dizer que durante esse processo, essas pessoas provavelmente não reclamaram ou desdenharam seu país, elas não se distraíram olhando para fora, em lugar disto, deram voz ao que verdadeiramente queriam desde o mais profundo de seu ser. E então, quando seus talentos cruzaram com as necessidades do mundo, ali, elas passaram a sentir-se realmente plenas e gratas.

O quanto basta para sentir-se pleno? Segundo Bert Hellinger, não é o muito que sacia, e sim o essencial. E qual a contribuição dessas pessoas para o nosso país? A vibração de gratidão, completude e serenidade, cooperação, liberdade e autonomia que enriquecem a Alma, a identidade do Brasil.

o nosso lugar

Eu posso sentir tudo isso e me sinto extremamente feliz, grata e pertencente ao Brasil.

Você já se perguntou por que, num mundo de aproximadamente 193 países, você nasceu justamente aqui? Qual o seu propósito aqui? Aquele, que além de te trazer completude ainda deixe seu legado, enriqueça a Alma do seu país e sirva de inspiração para muitos por aqui?

Eu venho me fazendo essas perguntas há algum tempo e estas perguntas tem me mostrado um novo olhar, um novo caminho e muito orgulho de estar exatamente aqui e poder deixar a minha contribuição para ele e aceitar tudo o que ele me traz com gratidão e amor.

Texto de Letícia Gazoni, aluna da Formação em Constelação Familiar do Instituto Ipê Roxo,

A indignação, por Bert Hellinger

Quando nos tornamos indignados sobre uma situação qualquer, parece que estamos do lado do bem e contra o mal. Ou do lado da justiça e contrário à injustiça.

Parecemos então ser aquele que intervém entre o agressor e sua vítima de modo a impedir um mal maior. Contudo, pode-se também intervir entre eles com amor.

E isso seria, com certeza, melhor.

Assim, o que o indignado quer? O que ele realmente obtém?

O indignado se comporta como se ele próprio fosse uma vítima, embora não seja. Ele assume o direito de exigir uma reparação do agressor embora nenhuma injustiça tenha sido feita, pessoalmente a ele.

Ele assume a tarefa de advogado das vítimas, como se ele tivesse dado a ele o direito de representá-las; e fazendo assim, deixa as verdadeiras vítimas sem direito.

E o que faz o indignado com esta pretensão? Ele toma a liberdade de fazer coisas más aos agressores sem medo de qualquer consequência ruim para sua própria pessoa. Pois suas más ações parecem estar a serviço do bem, e assim elas não temem qualquer punição.

 

As ações incentivadas pela indignação

De modo a manter sua indignação justificada, tal pessoa dramatiza tanto a injustiça sofrida pelas vítimas quanto as consequências das ações da parte culpada. Ela intimida as vítimas a verem a injustiça pelo mesmo modo com ela mesma vê.

De outro modo, caso as vítimas não concordem, tornam-se suspeitas e alvo de uma indignação justificada. Como se elas mesmas fossem agressores.

Da perspectiva da indignação é difícil para as vítimas deixar seu sofrimento ir embora, e é difícil para os agressores deixarem sua culpa ir embora. Se às vítimas e aos agressores for permitido encontrar uma resolução e uma reconciliação por seus próprios meios, elas podem se permitir, 30uma a outra, um novo começo.

Mas se a indignação entra em cena, tal resolução é muito mais difícil, pois o indignado, geralmente, não fica satisfeito até que o agressor tenha sido completamente destruído e humilhado, mesmo que isto, ao ser feito, intensifique o sofrimento das vítimas.

A indignação é em primeiro lugar uma questão de moralidade. Isto quer dizer que o indignado não está realmente preocupado em ajudar outra pessoa, mas comprometido com uma certa demanda para a qual ele se proclama o executor.

Deste modo, ao contrário de alguém que ama, tal pessoa não conhece nem contenção, nem compaixão.

“Nós estamos liberados do mal quando podemos, serenamente, deixá-lo ir.”


Leia sobre uma visão sistêmica do nosso país, clicando na imagem abaixo:



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