O filho obediente – Constelação Familiar de Bert Hellinger

Texto escrito pela Psicóloga, consteladora e professora do Instituto Ipê Roxo Sonia Farias


 

Gratidão e Reverência: Esses temas são tão recorrentes. Estou seguidamente diante deles na minha vida e especialmente no meu trabalho.

Recentemente acolhi para atendimento no meu consultório, um jovem, filho bom e obediente, à primeira vista, um exemplo. Alguém que não despertava preocupações dos pais.

Entretanto, tornou-se uma pessoa que se colocou na vida longe de sua alma.

Sim, obedecia para não desagradar ou ferir seus vínculos familiares. Assim, procrastinava dia a dia, o seu próprio desenvolvimento. Por trás de sua pseudo obediência o que havia?
Uma raiva enorme.

Embora pudesse se expressar, decidiu se calar e acusar seu pai pelos seus insucessos. Sentia muita culpa e ao mesmo tempo paralisado, pois seu pai lhe dava tudo.

A culpa o estava levando para uma vida medíocre, sem cor. Tudo era meio preto e branco. Vivia em águas paradas. Sem paixão, motivação, sem vontade para levar sua vida adiante. Nunca fazia o que queria fazer, mas mantinha-se obediente ao pai. Passou a se encaixar numa preguiça existencial frustrante.

 

Como sair desse lugar?

Então lembrei de uma história e contei…

“Era uma vez um patrão que precisou fazer um negócio, mas antes de fazer sua longa viagem, chamou três de seus empregados, deu-lhes moedas de ouro. A um deu cinco, a outro três e para o último entregou-lhe apenas uma. O que receberá cinco, transformou-as em dez, o que receberá três, em seis, e o último guardou sua moeda, pois em seus pensamentos o padrão era duro, exigente e bravo.

Assim, quando o patrão retorna, ao averiguar o trabalho de todos, ficou surpreendido com a atitude do que recebeu uma moeda de ouro. Perguntou-lhe: – O que aconteceu?

E ele respondeu: – Sabendo que o senhor era duro é exigente, guardei a moeda, e agora eu a devolvo.

E o patrão respondeu: – Servo mau e preguiçoso, vou usar suas próprias palavras. Sabendo que sou um homem duro, você nem pensou em colocar no banco para render algum juro?

E depois virou-se para os outros empregados e disse:
– Tirem a moeda dele e a dêem ao que tem dez moedas.

E finalizou comentando que é assim a vida: – Aquele que tem muito receberá ainda mais, mas quem não tem, até o pouco que tem tirarão dele. Esse empregado será lançado fora, na escuridão. E ali ele vai chorar e ranger os dentes.

 

A recusa em tomar a vida em suas próprias mãos

Que história forte. Mas a vida dá essa resposta aos filhos que recebem, e não tomam o que recebem.

Sofrem dessa forma. Vão vivendo suas vidas sem realização, ficam cegos e entram num terrível vazio. Mas a situação mais insinuosa e ainda pior é:

– Vou, mas não vou. Faço de conta…

Que brincadeira perigosa.

É parecer que tomou, mas não tomou. Demonstra uma aparente obediência, mas nada aconteceu de verdade. É como aquele menino que se assenta conforme a ordem do pai, mas seu coração mantém-se em pé.

Sua vida segue desvitalizada e sem frutos, revelando exatamente seu coração altivo. Sente-se culpado. Gostaria de escolher, mas não se permite falar o que quer, teme o temor do próximo passo. Teme o seu próprio crescimento.

É o temor do ‘tomar a vida nas próprias mãos’.

Somente no caminho da gratidão se decide ‘falar e fazer algo de bom’. Mas, algo acontece com esse filho. E ele prefere manter sua vida pueril, fica na culpa, e atendendo exigências e alimentando julgamentos.

Nada acontece de verdade. São águas paradas. Não toma o que recebeu e suas reivindicações em relação aos pais, deixam-no cego, irrealizado e com a sensação de um imenso vazio.

 

Um lugar de sofrimento e sombras

Enquanto não tomar a vida com gratidão, seu coração não alcança a grandeza dos pais. A reverência não encontra espaço algum. Gratidão e Reverência, eis os dois caminhos que garante aos filhos, vida longa e feliz.

Caminhos da obediência com alegria no coração, assenta todas as coisas. Os filhos florescem e seguem em direção ao êxito. A vida ganha o ‘SIM’ cedendo ao coração a realização todos os seus desígnios.

A vitória bate à porta. É possível comprar champanhe, pois a hora da celebração está chegando. As três moedas de ouro já não são três, são seis, e as cinco, agora são dez, isso é muito bom!

Após o atendimento o cliente retornou e disse-me:

“- Sim, a parte que você falou que eu estava longe de minha alma, fez eu perceber conscientemente isso, e até pensar em outras questões que me afastam da minha alma. Parece que não me encontrei bem ou que estou desposicionado, tentando me encontrar. É como se eu ainda tivesse pisando em areia movediça em vez de chão firme.

Ficou mais claro, também, o fato de eu ficar com raiva do meu pai pra talvez atribuir a outra pessoa a culpa por eu não ter tomado atitude e assumido a minha vida pra me desenvolver e evoluir como queria e quero.

Fico brigando com essa raiva dentro de mim. Parece que o peso da minha dor ficou mais leve….por outro lado, parece que ficou mais fácil visualizar soluções quando aceito que eu sou o culpado por esse meu insucesso, e que meu pai fez o melhor que ele pôde. Quando fico só me queixando entro numa energia de dor e injustiça. E quando aceito que sou responsável, posso ver clarear o caminho, como se parasse de me conformar com as dores e sentimento de vítima, e pensasse em maneiras de superar essas questões e de me desenvolver como eu quero.

Mas eu vi também que ainda não estou podendo receber. Não estou pronto ou não estou conseguindo aceitar. Ainda tenho culpa. Ainda acho que faço pouco, e por isso não mereço o que ganho. Os presentes trazem junto o peso de eu não merecê-lo.

A parte de eu fingir que trabalho também. “Vou mas não vou”. Acontece muito. Tento enganar meu pai, e sei que estou mais a me enganar do que a ele. Isso me causa extremo desconforto, mas é difícil mudar de postura.”

Esse é o caminho, dentro de um longo processo. Estamos nos movendo, e esse jovem filho está percebendo ‘algo’, dando seus passos em nova direção. Neste novo lugar, novas informações se mostrarão, dando inicio a uma nova fase de sua vida. Esta, muito mais próxima de seus pais, ainda que longe da obediência. Para tanto, há que se aceitar o crescer. E sempre acompanhado do amor por aqueles que nos deram a oportunidade de viver.



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Um comentário sobre “O filho obediente – Constelação Familiar de Bert Hellinger

  1. Prezados, Que delicia de post, maravilhoso, gratidão por vcs fazerem tão bem as pessoas. Me ajudou muito. relato abaixo o que aconteceu aqui em cssa. Meu filho com 22 anos cursando ADM, (5 fase) trabalhando. Todos os dias ia triste para a Universidade. Vivia se arrastando. Ama o trabalho. Odeia a faculdade. Essa semana fizemos uma terapia familiar e ele teve a coragem de falar pai eu odeio Administração estou fazendo esse curso para te agradar porque vc diz que música não enche barriga de ninguém. Vou trancar a faculdade e vou me preparar para fazer o vestibular para música. Vcs me prepararam desde os 6 anos em aulas de música Violino, violão, piano e depois me abandonaram me levando para outros caminhos me desviando da música. Falando que não da sustento para ninguém. Eu fui covarde não tive coragem de ir atrás de meu objetivo e ficou culpando o pai pelo descaminho.

    Gratidão por vcs equipe maravilhosa. Sempre encontro palavras de conforto nos textos publicados.

    Em 26/10/2017 10:21, “Constelação Familiar e Sistêmica segundo Bert

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