A relação de casal pelo olhar da Constelação Familiar

A relação de casal é o ponto inicial da família que construímos quando adultos. Levamos da nossa família de origem os muitos referenciais sobre o lugar e o papel de cada um em nossa nova estrutura familiar.

Através do relacionamento amoroso e da consumação do amor, o homem e a mulher deixam sua família de origem para criar um novo vínculo.

Esse vínculo se orienta a um terceiro. Quando o casal tem um filho, através deste o homem e a mulher se tornam completos no seu masculino e feminino. E é no filho que esse vínculo passa a existir para sempre. De maneira plena e visível para todos.

Este filho, respeitando à lei da ordem, vem depois do relacionamento do casal. Por isso, um grande bem que um casal pode fazer para a criação de seus filhos é amar-se e respeitar-se como homem e mulher.

Primeiramente, foi esse amor que fez possível que o filho ou a filha viesse. E por esse motivo, deve sempre ser honrado.

Bert Hellinger diz: “E assim como raízes nutrem a árvore, assim também seu amor como casal sustenta e nutre seu amor de pais pelos filhos.”

 

O vínculo

O homem e a mulher – e também casais do mesmo sexo – experimentam o vínculo de forma muito profunda quando se relacionam. Este movimento é que permite que ambos deixem sua família para criar a sua própria.

O relacionamento íntimo entre o casal cria um laço da alma, que é de certa forma indissolúvel. Mesmo que encontramos na nossa sociedade mecanismos como o divórcio, Bert Hellinger fala que em nosso coração esse vínculo permanece a agir mesmo após o fim de um relacionamento. Ainda segundo Hellinger o primeiro relacionamento sempre nos vincula de forma especial e, quando há um segundo ou ainda outros, estes últimos já não terão a mesma força que o primeiro.


“Uma nova relação não tem o mesmo efeito da primeira. Isso se revela pelo fato de que o marido ou a mulher de uma pessoa que se casa pela segunda vez não ousa tomá-la e mantê-la como a primeira união. A razão é que o casal experimenta a segunda união com culpa em relação à primeira.”

Bert Hellinger


Nos workshops aqui no Ipê, é possível perceber de forma bem clara estes vínculos. Muitas vezes quando um cliente vem e traz um tema relacionado à dificuldades de relacionamento, muitas vezes há um parceiro anterior não visto no caminho.

Quando se se traz para a consciência a existência de um parceiro ou parceira anterior, é possível para o cliente perceber o vínculo que o está ligando a esta história, e com amor e respeito, deixá-lo seguir.

O vínculo porém continua a existir, por exemplo: aquela pessoa continuará a ser o primeiro ou primeira parceira de relacionamento, isso não mudará. Porém, o vínculo que é reconhecido não mais se interpõe no caminho de novos relacionamentos. Ele se torna parte do que foi, sem precisar permanecer presente.

Bert Hellinger nos traz a imagem de que a cada novo relacionamento, entramos com “menos”. Já deixamos “coisas” com os parceiros que vieram antes, e por isso temos menos à disposição, somos capazes de dar um pouco menos a cada novo relacionamento.

É importante salientar, porém, que esse é um movimento da alma, não se relaciona com bens ou coisas concretas e sim com a disponibilidade interna (de alma e coração) para se relacionar. Por isso, é mais fácil terminar um segundo relacionamento em comparação com o primeiro…e, sucessivamente, a cada novo relacionamento há menos vinculação e mais fácil se torna a separação.

Aqui, não entra qualquer juízo de valor, de certo ou errado. Apenas se mostra uma lei que atua sobre todos e que, independente de nossa vontade, age sobre nós.

Dar-se conta destas leis que foram observadas por Hellinger, nos ajuda a perceber muitas das nossas atitudes quando estamos nos relacionando. Principalmente para quem está no segundo ou terceiro relacionamento, compreender como elas atuam pode nos ajudar a compreender e dissolver conflitos com um parceiro, por exemplo.

 

A visão sistêmica reconhece diferentes funções para o homem e para a mulher dentro de um relacionamento, porém ambos com o mesmo grau hierárquico, ambos estão no mesmo nível quando falamos de lugar (ordem). 

O homem não é mais importante do que a mulher, assim como a mulher não é mais importante do que o homem. Eles são equivalentes. Sem qualquer uma das partes, o relacionamento inexiste.

Da mesma forma, ambos se necessitam mutuamente. Reconhecer isto nos abre o caminho para a compreensão de um desequilíbrio que acontece entre o casal.

 

Se os dois precisam, os dois tomam e dão, em uma troca equilibrada. Porém, se por algum motivo, há um lado que é “benevolente”, que sempre cede, que não costuma pedir nada em troca, o relacionamento entra em uma área perigosa para sua sobrevivência.

Atua em nossos relacionamentos a lei do equilíbrio, e quando somos impedidos de exercer uma troca equilibrada, nos sentimos pressionados a buscar a compensação.

E se nosso parceiro ou parceira “benevolente”, não abre espaço para o equilíbrio, é comum que quem recebeu muito saia do relacionamento. Hellinger define como pesado o destino daquele que não pode se relacionar compensando o que recebe de alguma forma.

Saímos de nossa família de origem e seguimos para nossa iniciativa de criar uma família. Mas isso não corta nosso pertencimento do nosso sistema original. Então, os emaranhamentos não resolvidos daquele sistema podem atuar no novo relacionamento.

Desse lugar podem surgir alguns conflitos para o casal. Bert Hellinger fala que “somos estrangeiros na família do cônjuge. Não falamos a “língua” e não compartilhamos da mesma cultura.”

Por isso, ele mesmo sugere, temos que ter muito cuidado ao nos colocar em nossos relacionamentos. Precisamos entender que aquele ou aquela que está agora comigo teve uma vida com sua própria cultura e emaranhamento, e que de certa forma ele ou ela também é resultado disso.

Quando, por algum motivo, intervimos no processo da família do nosso parceiro ou parceira, estamos a alguns passos de fracassar pois nos colocamos em um campo que não conhecemos e não temos bússola, não temos registros, não temos informações – é a família do outro e ali não temos nada a fazer. Absolutamente nada. 

Bert Hellinger fala sobre o movimento do divórcio no livro “A simetria oculta do amor”. Leia abaixo:

Quando finalmente se dá a separação, ambos os parceiros se vêem diante das possibilidades e riscos de um novo começo. Se um deles rejeitar a oportunidade de um novo começo e ignorar a possibilidade de criar algo de bom, preferindo apegar-se à dor, torna-se difícil para o outro parceiro libertar-se.

Por outro lado, se ambos aproveitarem as oportunidades surgidas e fizerem alguma coisa com elas, ambos se libertarão e ficarão aliviados do fardo. Entre todas as possibilidades de perdão nas situações de divórcio e separação, esta é a melhor, porque traz harmonia mesmo quando a separação ocorre.

Se a separação é dolorosa, há sempre a tendência a procurar alguém para incriminar. Os envolvidos tentam aliviar o peso do destino arranjando um bode expiatório. Em regra, o casamento não se desfaz porque um parceiro é culpado e o outro inocente, mas porque um deles está assoberbado por problemas da sua família de origem, ou ambos caminham em direcções opostas.

Se se incrimina um parceiro, cria-se a ilusão de que algo diferente poderia ter sido feito ou de que um comportamento novo salvaria o casamento. Nesse caso, a gravidade e a profundidade da situação são ignoradas, os parceiros começam a recriminar-se e a acusar-se mutuamente.

A solução para combater a ilusão e a crítica destrutiva é resignar-se à forte dor provocada pelo fim do relacionamento. Essa dor não dura muito, mas é lancinante. Se os parceiros se dispuserem a sofrer, poderão tratar do que merece ser tratado e dispor as coisas que precisam ser dispostas com lucidez, ponderação e respeito mútuo. Numa separação, a raiva e a censura estão a substituir o sofrimento e a tristeza.

Quando duas pessoas não conseguem separar-se civilizadamente, isso acontece, às vezes, porque não souberam tomar plenamente um do outro aquilo que lhes foi oferecido. Devem, pois, dizer-se “Recebi o que de bom me deste e vou guardá-lo como um tesouro. Tudo o que te dei, dei-o com gosto, portanto, guarda-o também.

Assumo a minha parcela de responsabilidade pelo que saiu errado entre nós e deixo-te a tua. Agora partirei tranquilo”. Se conseguirem dizer isto com sinceridade, podem separar-se em paz.

Muitas vezes os parceiros agem como se a sua participação no relacionamento fosse como a associação a um clube, associação livremente escolhida e que pode terminar livremente. Mas a consciência secreta e infatigável que zela pelo amor ensina outra coisa. Se fossemos livres para cancelar as nossas parcerias, a separação não magoaria tanto.

Numa parceria séria de iguais, estamos ligados um ao outro e não podemos separar-nos sem sofrimento e culpa.


 


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