Adolescência em perigo? Um olhar sistêmico para o desenvolvimento dos nossos filhos

 Um artigo especial do projeto do Instituto Ipê Roxo Educando nossos filhos, com autoria da Consteladora Maria Inês Garcia Araujo Silva.


 

Acompanho famílias em suas angústias há 37 anos e saibam, as dores da adolescência sempre tiraram o sono dos pais, que, por também já terem sido um dia jovens saudáveis, que em sua ânsia de querer saber o mundo, se lançaram em experiências nem sempre salutares, reconhecem as delícias e os riscos desta fase do desenvolvimento.

Costumo dizer que os melhores pais são os que têm as melhores memórias, e ao se incluírem no processo de desenvolvimento dos filhos, sabem que a base da sua educação, o alicerce, já foi construído nesta fase. Agora na adolescência, escolher a forma, o caminho, se faz necessário na experiência. Os jovens irão se lançar no mundo, experimentando.

Vocês pais conhecem os riscos e desejam que eles os ouçam pois já passaram por isso, mas eles não o fazem.

Como resolver?

Creiam, que validar as experiências de seus filhos confiando na forma como seus valores foram construídos, com vocês, é o melhor caminho, sem esquecer que são indivíduos diferentes portanto viveram de forma diferente.

Os desafios que a vida impõe aos adolescentes de hoje não é maior nem menor que os desafios que vocês pais viveram na própria adolescência, mas certamente são diferentes.

A sociedade vem se modificando como sempre, mas a rapidez com que as informações chegam aos jovens através da internet, dos novos meios de comunicação, sem mediação, os leva a ficarem confusos e muitas vezes empaticamente distantes da realidade da qual fazem parte.

Eles sabem por exemplo o que está acontecendo agora do outro lado do mundo, mas não sabem o nome de vários colegas que encontram todos os dias. Não vêem, sequer percebem como se sentem, ou pensam ou o que desejam.

Sabemos que o corpo quando experimenta com todos os sentidos as situações, registra e aprende com mais precisão, aumentando a capacidade de integração das experiências.

Virtualmente, estas experiências são vivenciadas sem autoria, sem conexão real, sem o real comprometimento e confronto da exposição de seus pensamentos, sentimentos, ações frente ao outro.

Quando vejo e me exponho ao outro fisicamente, percebo que ações provocam reações, que ressoam em mim, com consequências e assim me vinculo, escolho, assumo e cresço. Na internet, muitas vezes são relacionamentos sem rostos, sem subjetividade.

Os novos meios de comunicação vieram e se modificarão, como sempre foi. É uma condição real e necessária. A linguagem das pessoas, sobretudo dos jovens, refletem mudanças novas de costumes, percepções que auxiliam no processo de desenvolvimento do mundo.

Eu acredito que, como em todas as gerações, o que for sólido permanecerá e aquilo que tem seu tempo de vida para uma função transitória, deixará de existir.

Me recordo quando meus filhos visitaram uma exposição de tecnologia e telecomunicação e ficaram surpresos com os antigos aparelhos de telefones, máquinas de escrever, toca-discos, etc… Para eles objetos estranhos, analógicos, lentos, obsoletos, mas fascinantes pois alí se mostravam os princípios básicos de uma tecnologia cada vez mais avançada.

O que fazer?

Não tem volta. Esta era digital possibilitou avanços importantes em todas as áreas. Serviço ao homem. Mas porque tanta depressão, tanta perversão, tanta solidão?

Queridos, o essencial é simples mas não substituível.

Talvez possa parecer estranho não responsabilizar a internet por tantos males à nossa sociedade. Este meio de comunicação que alicia nossos jovens ao mal. Que os induz à cometerem crimes apoiados por centenas de milhares de anônimos, que os induzem à morte assistida e aplaudida. Será que a internet tem esse poder todo?

Sabe, quando o essencial permanece, este meio de comunicação não substitui, não fere e não mata a autoria, a responsabilidade e o crescimento.

 

E o que é essencial então?

Vocês pais! Sim! Vocês presentes na vida.

Primeiro em relação à vocês mesmos, para que plenos, tenham condições de nutrir seus filhos e assim estar presentes para eles.

Filhos ouvidos, vistos, respeitados, orientados, com certeza não se matam por indução de um meio de comunicação.

Famílias que criam espaço de diálogo, pensam; portanto perguntam querendo saber, cuidam, limitam, acolhem, e acreditam que os filhos têm condições de assumirem as consequências de suas escolhas, não acobertam, nem acusam.

Simplesmente acolhem, orientam e lidam com a realidade como é.

Bert Hellinger, filósofo e psicoterapeuta alemão, ensina através das 3 leis do amor, que regem a vida, independentemente da cultura a qual pertença, que o ser humano quando se sentindo pertencido à seu grupo familiar, quando atento à seu lugar na família e quando em equilíbrio com o que a vida lhe traz, torna-se um adulto confiante e saudável, capaz de cumprir bem sua missão na vida.

Que conselho eu daria então, para quem vive essa angústia?

O que eu trabalho com meus clientes e vejo que traz resultados concretos, independente de classe social, econômica ou cultural e que vejo que realmente resgata um jovem de uma situação de perigo, depressão ou droga, é quando os pais assumem o compromisso de praticarem e aprenderem a criar vínculos fortes com os filhos.

E o que é fundamental para isso? O que eu busco desenvolver com eles?
– O diálogo respeitado;
– A presença;
– A confiança nas habilidades dos filhos;
– A alegria no futuro deles.

São chaves para que nossos filhos adolescentes transitem nesta fase tão singular da vida, com força, criatividade e mais probabilidade de sucesso.

No meio de uma família onde o amor e o respeito circulam, Baleia Azul não ameaça. Surpreende e gera compaixão.

Em uma família onde os pais se comportam como responsáveis, como grandes, como porto seguro, Baleia Azul não ocupa o lugar da coragem em expressar o que se vê, se pensa e sobretudo ao que se sente sobre as mais diversas situações.

Onde existe encontro, Baleia Azul é o que é, um animal da natureza e não a perversidade de um jogo que guia jovens que não sabem quem são, que não honram seu sobrenome, que se sentem vazios e sós.

Então, o que cabe a nós como pais?

Nossa responsabilidade como pais; nosso amor; nossa dedicação, atenção e muito trabalho, é o que afasta jogos perversos, destinos trágicos, condutas de desrespeito à vida.

Adolescência tem sim seus riscos. Nós pais sabemos, já fomos adolescentes. Riscos naturais ao processo de amadurecimento neurológico, hormonal, emocional e social.

Se respeitados, orientados e cuidados, estes jovens enfrentarão estes desafios com equilíbrio e se transformarão em homens e mulheres produtivos, criativos e felizes.

Confiem e trabalhem muito, pois, ter filhos saudáveis dá trabalho e exige de nós. As relações precisam ser construídas e alimentadas. E a grande missão dos pais, que são os adultos desta relação, é fazerem-se presentes na vida dos filhos, fazerem-se atentos, observarem o que acontece na vida deles.

O que eu penso sobre a tecnologia na vida dos filhos?

Às vezes alguns pais pensam que a tecnologia é um retrocesso para a humanidade e não evolução. Porque eles sentem isto?

Talvez porque os filhos não se interesses mais como antes em estar com a família, talvez porque ficam fechados em seus quartos, talvez porque se comunicam melhor digitando que conversando.

Retrocesso será sim, se como pais, não construírem referências para que os filhos possam usar os recursos e benefícios que as novidades tecnológicas oferecem.

E como os pais podem ser pontes, marcos referenciais neste universo imenso de novidades?

– Mediando;
– Acompanhando;
– Estabelecendo formas adequadas de uso para que os comportamentos estruturantes para o bom convívio sejam respeitadas e validadas.

Como fazer isto?

Os pais que atendo costumam me perguntar, como fazer isso, como aplicar esta postura de criar estrutura, de ser exemplo, de confiar e estabelecer vínculo. Eu dou a eles orientações práticas, como por exemplo:

– Quando como pai, como mãe, me incluir na regra facilita. Por exemplo, quando não permito o uso de celular durante as refeições, também não devo usá-lo;

– Reserve tempo para estarem em família sem a interferência dos eletrônicos;

– Criem regras juntos, possíveis e com bom senso, para que possam ser cumpridas, mas lembrem-se, vocês são os pais e a responsabilidade é de vocês para definir as referências para o bom uso de toda a riqueza que estes novos recursos trazem para a sociedade;

– Crie espaços de reflexão, diálogo sobre o que surge através destas telas mágicas;

– Faça com que os diálogos sejam agradáveis e não sermões intermináveis que afastarão ao invés de aproximar os jovens.

– Exercite a escuta! Pergunte querendo saber. Tenha paciência, sobretudo se a opinião de seu filho for diferente da sua. Em outro momento, quando for propício, coloque a sua visão sobre o tema sem desqualificar a de seu filho. Com certeza isto o estimulará a refletir e voltar a te procurar quando tiver dúvidas ou simplesmente para compartilhar experiências.

É preciso lembrar que os recursos que nós desenvolvemos (porque sim! foi nossa geração que iniciou o processo da tecnologia à serviço da coletividade) deve servir e não afastar; deve e pode ser usado para fortalecer nossa vida, diminuir as distâncias, facilitar o aprendizado.

Quando olhamos com atenção, vemos que não é a tecnologia que nos faz perder nossos filhos para o mundo virtual, mas sim nossa postura como pais. Sei que pode ser dura essa minha afirmação, porém, é o que vejo durante quase 4 décadas atendendo as famílias.

Ao não assumirmos como deveriamos o nosso lugar, nos enfraquecemos e os jovens ficam sem rumo, órfãos de pais vivos. E à estes jovens, sempre haverá quem os “adote”, sobretudo para usá-los.

Quem sabe quem é, quem reconhece seus pais como refúgio e farol, não permite se expor aos abusadores.

Sei que o amor de vocês pais à seus filhos é imenso, procuram fazer o melhor, mas somos humanos e bem falíveis. No entanto, quando conscientes disto, podemos assumir a missão de pais como prioridade e assumi-la com dedicação e amor. Quando é assim, os resultados, eu posso afirmar, serão positivos.

Creia, confie, você pai, você mãe, tem tudo o que é necessário para guiar seus filhos ao sucesso pessoal. Se está confuso, busque ajuda. Você é importante demais para seu filho e, se estiver bem, se sentirá forte para criar um futuro saudável para seus filhos.


Para tirar dúvidas ou para falar conosco, entre em contato pelo formulário abaixo.

2 comentários sobre “Adolescência em perigo? Um olhar sistêmico para o desenvolvimento dos nossos filhos

  1. Como é bom “ouvir a voz da experiência”! Preciosíssimo este texto. É muito fácil eu falar que a culpa é da internet….quando não paro para analisar que não estou sendo uma mãe presente, respeitosa e quando principalmente não confio neles, nem naquilo que passei de valores até hoje….que reflexão, já fiz muito isso, mas de uns tempos pra cá tenho tentado me policiar!
    Que chacoalhada! Gratidão Maria Inês!

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