Filhos que assumem pelos pais – O olhar da Constelação Familiar de Bert Helllinger

Texto escrito por Mônica Almeida Zocoli, aluna do curso de formação em Constelação Familiar de Bert Hellinger do Instituto Ipê Roxo.

 

“A criança procura evitar, às vezes, tomar e agradecer, tornando-se ela própria uma doadora. Porém muitas vezes, ela dá algo errado ou dá em excesso: por exemplo, quando pretende assumir por seus pais algo que não lhe compete como criança”. (Hellinger; Hoven,2014, p. 65).

Quando criança lembro-me de desejar fortemente, mas muito fortemente tornar-me adulta rapidamente. Minha ideia era que assim eu teria pleno controle sobre minha vida, minhas ações, não veria mais a briga dos meus pais e não teria mais a escassez financeira com a qual a minha mãe passou a minha infância toda se preocupando.

Hoje olho para minha infância e vejo que nunca realmente passamos fome, que sempre fomos socorridos por familiares da minha mãe e generosos vizinhos. Eu e meus irmãos tivemos a particularidade de crescermos em um bairro de classe média alta, o que nos possibilitou um convívio com crianças mais abastadas.

Desde meus sete anos, quando fomos morar nesse bairro, a casa que moramos pertencia ao meu bisavô (Firmino Oliverio) recém-falecido. Esse bisavô foi o responsável pela criação da minha mãe, e por isso minha mãe “invadiu” a casa. Foram anos maravilhosos, com árvores frondosas no quintal e muitas brincadeiras com os amiguinhos.

Eu noto que apesar de eu ter essas doces lembranças, dificilmente partilho meu passado, dizendo aos amigos, quando geralmente todos se reúnem para partilhar como foi a infância dos anos 80. Eu tenho histórias, claro, mas geralmente muito mais escuto do que compartilho, apesar de ter tido quase as mesmas vivências do tipo: naquela época brincávamos de esconde-esconde na rua, ou ainda, naquela época uma garrafa de Coca Cola de 1 litro era suficiente para a família toda!

Sinto que tenho certo bloqueio em partilhar, pois junto vem a “carga” que também carreguei em ver minha mãe ainda muito jovem, abandonada pelo meu pai, sem recursos financeiros e com três filhos para criar… E eu sendo a mais velha, achava que “tinha que fazer algo” para deixar a vida mais fácil para ela.

Eu, que tenho toda essa dificuldade em olhar para trás, pensava comigo que já estava resolvido, mas inconscientemente fui deixando esse artigo para o último dia do prazo. Não sei por que, pois agora nesse momento encontro-me chorando e molhando meus cadernos em lágrimas.

Aqui estão minhas palavras carregadas de uma emoção que eu nem sei descrever. Saudosismo? Talvez, aquele que eu nunca me permiti, pois queria desesperadamente crescer rápido demais para ajudar minha mãe. (*Nota dos professores: Aqui vemos a dinâmica das crianças quando se afastam do pai ou da mãe ou quando um deles vai embora: “Papai, sem você eu tenho que ir rápido demais para o futuro, sem você tenho medo do amanhã.”)

Nas duas últimas semanas chegou até mim, de uma forma nada convencional, o livro: Bert Hellinger – Um lugar para os excluídos. Comecei a ler de forma voraz, como adoro fazer, aprendendo muito com todas as passagens que Bert (o observador das ordens do amor), enfrentou naquela Alemanha do período nazista, de Hitler e da segunda guerra mundial.

Até que chegou o ponto que o livro apresenta: Os cinco círculos do amor (pg. 63), onde diz que o primeiro círculo são os pais. Achei o conteúdo muito enriquecedor, pois agora como “consteladora”, eu via ali um rico material para expandir minhas ideias.

Cheguei então no segundo círculo do amor: infância e puberdade e com muito espanto pensei: Esta aqui o meu tema: “filhos que assumem pelos pais”. E dessas páginas não consegui mais prosseguir com a leitura, muito além de ler, aprender, intelectualizar, essas palavras me prenderam muito mais que eu queria. A VERDADE, a ORDEM e a LEI estavam ali, nuas e cruas e havia chegado minha hora de finalmente perceber:

“A criança tem às vezes dificuldade em tomar, por que o que vem dos pais é tão grande que a criança não pode retribuir tanto”. (Hellinger; Hoven,2014, p. 65).

“Os filhos não podem suportar o desnível que sentem em relação aos seus pais, principalmente quando não sabem que a verdadeira compensação do que recebem dos pais, consistem em transmitir isso a outros, especialmente mais tarde, aos próprios filhos. A sensação de não poderem retribuir é um dos motivos que impelem os filhos a deixar a casa dos seus pais.” (Hellinger; Hoven,2014, p. 65), diz a lei do Equilíbrio.

Sim, eu como a filha mais velha, fui a primeira a sair de casa. Isso foi há 20 anos. Minha mãe sofreu, lembro bem, e meu pai já morava em outra cidade. Saí para estudar, mas carreguei comigo rancor, raiva e mágoas: achava tudo difícil, achava difícil morar de favor na casa da tia e depois na casa da prima. Não tinha maturidade. Não tinha dinheiro para pagar cursinho e/ou faculdade particular.

Eu me queixava e achava meu motivo tão nobre: só queria estudar! Não conseguia achar a possibilidade de trabalhar e estudar, como a grande maioria faz, eu idealizava entrar na universidade, mas também achava que meus pais, principalmente minha mãe me devia isso.

Com o tempo passando, e em contato com outras culturas, outras famílias, outras pessoas, outras formas de viver, consegui perceber o valor do trabalho, mas mesmo assim, pipocando de um lugar a outro. Sentia-me sempre em débito (e só agora consigo entender isso um pouquinho).

Quando fui confrontada com esse aspecto do meu ser: “FILHOS QUE ASSUMEM PELOS PAIS”, ainda me é particularmente difícil perceber, parece que minha cabeça fica embaralhada. Mas com humildade e aos poucos, vou percebendo que meu lugar é bem pequeno nessa família, nessa hierarquia, nesse clã, ao qual pertenço e entre eles sou a menor…

Ah, mas como eu queria tanto ser a maior para aliviar as coisas para mamãe…

“O segundo circulo do amor é a infância. Tudo o que os pais me deram, os cuidados que tiveram por mim, dia e noite, perguntando-se: do que a criança está precisando? Tudo isso eu recebo deles com amor. Pois é incrível quanto de bom os pais dão a seus filhos. Os pais sabem o que isso lhes custou e o que significa para eles. Eu reconheço isso. Tudo o que aconteceu na minha infância eu concordo com isso agora – inclusive que meus pais não tenham visto alguma coisa, que tenham cometido erros ou que algo de insano tenha acontecido.

Tudo isso faz parte. Na medida em que me defronto com esse monte de desafios, e também de sofrimento, a dor e a necessidade de me afirmar, na medida em que aceito e assumo isso, eu cresço.” (Hellinger; Hoven,2014, p. 65).

Eu estava cega por um ideal de pai, de mãe, de família. Eu estava cega por uma queixa de falta de coisas materiais, cega também pelo julgamento que fazia por meus pais terem se casado tão jovens, minha mãe aos 18 anos, sem profissão e sem o apoio de sua família. Meu pai, cheio de dramas psicológicos.

Muitas vezes mesmo enquanto criança tinha muito medo de expressar uma opinião sem que dessa forma viesse uma represália pelo meu modo de pensar, dali viria uma lição de moral interminável para uma criança e o julgamento de que os filhos estavam contra o pai. E com tudo isso, eu hoje olho para trás e consigo perceber quanto amor e carinho pude receber de meus pais.

Na adolescência, evitei o máximo possível à convivência com meu pai, por medo físico e psicológico. Com minha mãe a convivência tornou-se insuportável principalmente quando ela engravidou do namorado. Eu a julgava o tempo todo. Eu me preocupava sobre como minha mãe iria dar conta, com tantos filhos. Presenciei as dificuldades dela na gestação, a falta de apoio do namorado dela, e por tudo isso, inconscientemente também fui julgando os meus avós…

Um pouco porque escutava a própria queixa dos meus pais contra os seus, um pouco porque mantinha o pensamento sobre como meus avós deixaram “assim” os meus pais… Filhos tão inconsequentes e imaturos…

Assim eu cresci, a perfeitinha, a CDF, a certinha, aquela que dá o exemplo, aquela que é a melhor!? Alô? Que pesado papel escolhi para mim. Todo o peso da família eu quis carregar comigo. Eu achava francamente que era minha missão, meu dever… assim procurei a religião e sem querer, sem perceber, mesmo a filosofia com a qual me identifiquei me dizendo para não agir assim, eu camufladamente, me tornei “maior” que meus pais, a que sabia mais, a que rezava por e para eles. Aquela que se preocupava por e com eles.

Tornei-me aquela que se afastou, que foi morar longe, em outro estado, e até em outro país, aquela que estudou mais, que sabia mais, mas que sem perceber também julgava e se afastava mais e mais.

Filosófica, racional e intelectualmente falando, sempre estudei sobre o quanto recebemos dos nossos pais e o quanto lhes somos gratos pela vida. Mas sentimentalmente, de sentir mesmo, com emoção, eu me “permiti” ha poucos meses, durante minha formação em constelação familiar no Instituto IPE ROXO. Eu não queria “sentir tanto assim”. Eu estava bem bloqueada nos meus sentimentos, eu estava no “modo sobrevivência”. Para que sentir tanto? E o que fazer com tamanha emoção? Céus!!! Com tamanho amor?

Meus pais se casaram por amor, um amor lindo, os jovens mais lindos da cidade! As crianças mais lindas e fofas nasceram dessa união, mas por certa “inversão”, isso eu não conseguia ver e aceitar…

Ainda estou interiorizando esse “tomar os pais”. Para Bert, tomar significa: concordar, assumir e incorporar o que se recebe. Tomar significa não receber passivamente. ? E o que se opõe ao tomar, está em não suportar o que pesa aos pais, e querer ajudá-los, intrometendo-me e colocando-me acima deles…

Assim “contemplo os meus pais com o peso de seus destinos, seus enredamentos, suas deficiências, seus vícios, suas doenças. Vejo o que tudo isso significa para eles, em termos de força, quando assumem…” (Hellinger; Hoven,2014, p. 69).

Como uma bela cascata, que vem chegando do alto e vai formando um lago.

Esse lago sou eu, uma junção das águas de papai e mamãe, eu olho para cima e vejo os que vieram antes de mim, para que assim eu tivesse um lugar nesse lago, o movimento de descer dessa água cristalina, passando “degrau por degrau” é grandioso, é magnífico e graças a esse movimento tão natural e ao mesmo tempo tão forte, seguindo uma ordem e também de acordo com outras leis que se interpõem harmoniosamente.

Assim, e só assim é possível eu viver a beleza de ser um lago, recebendo essa água, que é a própria VIDA. Água bela, cristalina, pura, digna. Assim recebi uma chance, assim recebo a VIDA que recebi de meus pais.

Chegou a hora de tomar! Chegou a hora de concluir esse artigo simbolicamente, chegou a hora! Longa jornada em direção ao meu “vazio interior” volto dessa jornada mais consciente, plena, amorosa, grata e finalmente no meu lugar de filha, apenas filha.”


Mônica Almeida Zocoli é consteladora, formada no Instituto Ipê Roxo. É natural de Vacaria/RS. Pratica meditação há mais de 15 anos. Tem como objetivo aplicar princípios, métodos e posturas de terapias alternativas com uma escuta amorosa, sempre com a finalidade de manter o equilíbrio entre cliente e terapeuta.
É graduada em Secretariado Excutivo Bilingüe na Universidade Federal de Santa Catarina, cursa a Pós-graduação em Psicologia Transpessoal (IZEN) e trabalha como Consteladora. Acredita num mundo belo e positivo, onde todas as pessoas refletem os nossos pensamentos.


Desejo compreender mais sobre Constelação Familiar

Um comentário sobre “Filhos que assumem pelos pais – O olhar da Constelação Familiar de Bert Helllinger

  1. maravilhoso. esclarecedor. mesmo nao constelando, os textos sao um grande exclarecimento no nosso autodescobrir. fantastico. só nesse texto ja encontrei mais algumas questoes minhas, q nao sabia a profundidade delas. é gratidao mesmo.

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