[Constelação Familiar de Bert Hellinger] Quando a dor do passado pode ser nossa força

Um dos maiores ensinamentos da Constelação Sistêmica de Bert Hellinger é a aceitação e concordância com as coisas como elas são e da forma como se apresentam para nós. Aceitar não é submeter-se cegamente às condições, mas entender que o passado não pode ser alterado e que foi  a única forma possível de a vida ter seguido adiante.

 

     Fantasiamos ao longo da vida a possibilidade de brincar com o jogo do “e se?”. Imaginamos as mais variadas alternativas para o que de fato ocorreu, idealizando situações que preferíamos que tivessem acontecido de forma diferente:  ”E se” tivesse aceitando aquele trabalho? “E se” meus pais tivessem me dado mais atenção?  “E se” eu tivesse decidido concretizar aquele negócio?  “E se” meu marido/esposa fosse mais amoroso?

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    Todas essas perguntas são uma oportunidade de confrontarmos a nossa não-aceitação perante o que aconteceu. Elas escondem a nossa insatisfação com o que é real em nossa vida.

Não aceitar a nossa realidade e o que aconteceu em nosso passado é abrir a possibilidade de adotarmos o papel de vítima, um lugar onde temos pouca ou zero chance de crescer e aproveitar a vida em sua plenitude, como pessoas maduras.

     As condições que aconteceram para nós em nossa infância ou em nossa fase adulta, é o que resultou no que somos hoje, tantos em aspectos negativos quanto positivos. Em nossa ânsia em negar o que é negativo e que causa dor, estamos negando também o que é positivo e prazeroso. Isso ocorre pois vivemos as experiências dos sentimentos através da dualidade.

O que é a Dualidade?

 Reconheço que a natureza da vida é o equilíbrio – que sempre experimentarei os “altos”’ assim como os “baixos”. Se eu lutar contra os “baixos” e tentar evitá-los, estarei lutando contra a própria vida. Se aceitar ambos de forma compreensiva, estarei em harmonia com a vida e comigo mesmo.

John Ruskan

 

   O psicólogo americano John Ruskan descreve em seu livro “Purificação Emocional” o processamento integrador, um método onde busca integrar a dualidade das coisas como base de uma vida mais completa.

        A teoria da dualidade afirma que o mundo manifesto se compõe de opostos, que na verdade se complementam. Cada elemento num par de qualidades depende entre si para que possamos percebê-los e vivenciá-los. Por isso, é impossível perceber a felicidade sem experimentar a tristeza, ou reconhecer o amor sem vivenciar o ódio. Se algo existe sem seu complemento, seria imperceptível, pois é necessária a experiência de ambos para conhecer cada uma em separado.

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        John Ruskan diz que “a dualidade é, simplesmente, a natureza da percepção e do sentimento; não é uma forma de punição. A mente percebe sentindo um par de complementos.

      Quando alguma coisa afeta a mente, ela também precisa ter uma experiência de intensidade semelhante com um complemento – não simultaneamente, mas próximo no tempo – para chegar a consciência dela.” (Purificação emocional, pg 53). Além disso, nós como seres que pensam nos acostumamos a atribuir valores positivos e negativos às experiências que passamos, e nos esquecemos de que esses valores somos nós que atribuímos à experiência, pois, na verdade, nada do que nos acontece pode ser considerado bom ou ruim, depende do que nós fazemos com isso. Muitas vezes estes conceitos mudam totalmente conforme a família, cultura, países: ou seja, tudo é sempre, relativo.

        Por isso, confiar somente no nosso julgamento de que algo foi negativo e nos prejudicou é utilizar uma base volátil para construir a memória de nossa experiência. É também dizer que seu contraponto positivo não nos auxiliou em nosso crescimento e no alcance de nossas capacidades, mesmo que muitas vezes através da dor.

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           Isso não significa não reconhecer que muitas pessoas passaram por momentos difíceis na infância ou em outra parte da vida. O que dizemos não se refere a tirar o valor daquilo que nos aconteceu: as perdas, o adeus a alguém querido, um relacionamento que acabou.

    A dor existe sim e o processo de cura é longo e muitas vezes doloroso. Mas é necessário abrir mão de utilizar essas dores para julgar quem quer que seja, ainda mais quando esse problemas ocorrem dentro de nossa família de origem. Esta é a grande chave para uma vida mais leve e aberta aos grandes significados da alma.

     Através do olhar das constelações, a cada dia vamos percebendo que, mesmo nas maiores dores e tragédias que acontecem no seio de uma família, não há que se falar em culpados, pois, o que se vê é que cada um está emaranhado em destinos muito difíceis, cada um a sua maneira: um pai violento, uma mãe que abandona um filho, alguém que tira a vida de outra pessoa…cada um emaranhado em dores muito antigas, que penetram gerações.

       As exigências que aplicamos àqueles que julgamos que “nos fizeram algum mal” são contas difíceis de serem zeradas. Desse lugar, é difícil ultrapassar a dor original, e a vida vira uma grande repetição da situação que causou a dor pela primeira vez.

           Mas conseguirmos aceitar as condições a que em algum momento fomos submetidos nos traz força e sabedoria para não mais entrarmos na mesma situação, dando-nos maturidade emocional para lidar com as cicatrizes, experienciar a cura e seguir para a vida.

 

Carta de Bert Hellinger ao pai.

     Publicamos há alguns meses atrás um post com uma carta escrita por Bert para seu pai. Ele descreve uma situação que exemplifica um pouco o conteúdo desse artigo. Ele fala nesta carta que por muito tempo de sua vida, ele se sentia desconfortável pela dureza que seu pai lhe tratou, e como não aceitava essa situação.

     Um dia, na conversa com seu terapeuta, e trazendo novamente o assunto à tona, o terapeuta, após ouvir todas as suas argumentações em relação ao pai de Bert lhe devolveu:

– Mas você é forte!

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     Então, Bert Hellinger, compreendeu que dentro daquilo que ele desejava que tivesse ocorrido de forma diferente no seu relacionamento com seu pai, estava um dos presentes que ele na verdade havia lhe dado. Uma retidão de caráter, os benefícios de uma boa índole e muitas outras características positivas que contribuíram para levar a vida adiante. Ao lembrar-se de seu pai, através dessa nova ótica, ele consegue reconhecer a força e o poder dele em sua vida, de uma forma que era impossível antes.

Quando alcançamos este lugar de aceitação, integramos internamente nossas experiências familiares. O que antes doía, se torna calmo e conseguimos ver para além da dor. Ganhamos um aprendizado e liberamo-nos de repetir o mesmo erro. É assim que começamos a caminhar para um lugar de grande força.

A aceitação como base das mudanças na vida

   Na constelação familiar muitas pessoas chegam com críticas, reivindicações e julgamento aos pais. É muito comum ouvir as queixas de desejariam que as coisas tivessem sido diferentes.

Quando é assim, para estas pessoas torna-se difícil enxergar todo o tesouro que receberam e ainda recebem dos pais. Ao não reconhecer o muito que receberam – ainda que esse muito não seja aquilo que eles desejariam ter recebido – eles se sentem fracos e desmotivados para caminhar adiante com suas vidas.

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   De certa forma, carregam um “peso” que não reconhecem como necessário, mas continuam carregando mesmo assim: os tesouros que receberam de seus pais. Se sentem perdidos por não terem coragem de aceitar e usar esses presentes, e muito menos de abandoná-los. Sentem-se pesados por carregar algo que não sabem como utilizar.

    Sobre a aceitação ao nossos pais, ao nosso destino e ao nosso passado, Bert nos ensina de forma tão bela e profunda:

“O primeiro ponto é que os pais, ao darem a vida, dão à criança, nesse mais profundo ato humano, tudo o que possuem. A isso eles nada podem acrescentar, disso nada podem tirar. Na consumação do amor, o pai e a mãe entregam a totalidade do que possuem. Pertence portanto à ordem do amor que o filho tome a vida tal como a recebe de seus pais. Dela, o filho nada pode excluir, nem desejar que não exista. A ela, também, nada pode acrescentar. O filho é os seus pais. Portanto, pertence à ordem do amor para um filho, em primeiro lugar, que ele diga sim a seus pais como eles são — sem qualquer outro desejo e sem nenhum medo. Só assim cada um recebe a vida: através dos seus pais, da forma como eles são.

Esse ato de tomar a vida é uma realização muito profunda. Ele consiste em assumir minha vida e meu destino, tal como me foi dado através de meus pais. Com os limites que me são impostos. Com as possibilidades que me são concedidas. Com o emaranhamento nos destinos e na culpa dessa família, no que houver nela de leve e de pesado, seja o que for.

Essa aceitação da vida é um ato religioso. É um ato de despojamento, uma renúncia a qualquer exigência que ultrapasse o que me foi transmitido através de meus pais. Essa aceitação vai muito além dos pais. Por esta razão, não posso, nesse ato, considerar apenas os meus pais. Preciso olhar para além deles, para o espaço distante de onde se origina a vida e me curvar diante de seu mistério. No ato de tomar os meus pais, digo sim a esse mistério e me ajusto a ele.

O efeito desse ato pode ser comprovado na própria alma. Imaginem-se curvando-se profundamente diante de seus pais e dizendo-lhes:”Eu tomo esta vida pelo preço que custou a vocês e que custa a mim. Eu tomo esta vida com tudo o que lhe pertence, com seus limites e oportunidades”. Nesse exato momento, o coração se expande. Quem consegue realizar esse ato, fica bem consigo, sente-se inteiro.

Como contraprova, pode-se igualmente imaginar o efeito da atitude oposta, quando uma pessoa diz: “Eu gostaria de ter outros pais. Não os suporto como eles são.” Que atrevimento! Quem fala assim, sente-se vazio e pobre, não pode estar em paz consigo mesmo. Algumas pessoas acreditam que, se aceitarem plenamente seus pais, algo de mau poderá infiltrar-se nelas. Assim, não se expõem à totalidade da vida. Com isto, contudo, perdem também o que é bom. Quem assume seus pais, como eles são, assume a plenitude da vida, como ela é.”

Trecho de uma palestra proferida por Bert Hellinger, em S.Paulo, Agosto de 1999 em original manuscrito. Original: Wie Liebe gelingt. Tradução: Anand Udbuddha (Newton Queiroz) , Rio de Janeiro. Revisão: Mimansa Erika Farny, Caldas Novas. Novembro de 2000

O movimento de aceitação que ocorre depois de uma Constelação é como encontrar um caminho para acessar a força da nossa família e das experiências que passamos.

Ao aceitar as dores, aceitamos usar os grandes benefícios que recebemos da mesma fonte. E nesse lugar, junto aos nossos pais e a todos que vieram antes de nós, encontramos a grande força para seguir adiante.



Para saber mais sobre Constelação Familiar e Sistêmica  LEIA TAMBÉM

O que é Constelação Familiar?

Em que casos uma Constelação pode ajudar?

 



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